terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Na fila

Tinha, logo depois de mim, uma mulher miudinha e curtida pelos anos.
Ela tossia e falava, falava e tossia, a mulher pequena e velha. Puxava do seio um trapo gasto, mas limpinho e esfregava a boca que teimava em dizer tudo. Assunto não faltava, era a vida. Muito que não contava, porque não era íntima ainda. A fila andava a passos lentíssimos e a intimidade crescia, o tempo e a proximidade favoreciam.
Sofrida desde antes de nascer, que a mãe fora traçada, sem conforto, por um cara conhecido, mas fugidio. Criança abandonada no barraco feio. A mulher contava e olhava o fim da fila sem ver nada que lhe apressasse a narrativa. Vertera seu primeiro sangue no morro, acostumado a outros sangues.
Descera porque tinha que trabalhar. Fizera de tudo. Isso mesmo, de tudo, não dê uma de pudorento e exclua isso ou aquilo. Mais sangue, e ela pariu uns pivetes que já lhe saíram do ventre despencando ladeira abaixo, para Deus sabe onde. Era por amor que ela seguia um malandro toda vez que lhe estalava os dedos. Fazia por ele desde o óbvio nesses casos, até entregar pequenas encomendas. Era forte sim senhor, que com essa sina ainda ria da vida e catava dela, aqui e acolá algum agrado.
Animadas, outras mulheres falavam também, complementando, tecendo, discordando, zombando e puxando segredos. Ela nem ligava e continuava tossindo palavras enquanto ouvidos houvessem cativos e tão disciplinadamente em fila.
O primeiro pivete morrera numa noite mal vinda. Tiroteio, confusão e o corpo do menino achado numa daquelas instituições do governo. Engraçado como corpos mortos ganham um valor súbito e inusitado. Antes ele comia e não comia a desimportância das autoridades. Doente, o corpo era menos valorizado ainda. Ossos e pele tostada pela inclemência de um sol curioso, fazia ele a dança de subir, descer, desviar de balas, negacear e, até com certo charme, esse gingado dos exus. Agora, para ser liberado, o corpo tinha que passar por tanto, parecia tão importante, queriam saber dele até o não sabido. Bem que agora esse corpo podia ficar por lá mesmo, já que o queriam tanto e dele certificavam tão bem os dados...
Ela tava nem aí não! Deus tem tudo escritinho e adianta nada querer fazer de conta que não!
Chorar? Sim, chorava fácil, como não chorar?!
Tudo que lhe saía do corpo, sem que lhe tentassem conter o fluxo, vinha bem. Líquidos, sons, mímicas e palavras, sobretudo essas, eram o que lhe dava a vida como prova de que existia mesmo essa tal de liberdade.
Vozes do mundo das mulheres em fila. Para que serve essa fila? É a do, ou a da? Bom, eu queria a outra, mas essa também serve.
Pois a patroa age assim. Disse que eu cheirava forte, querendo dizer que fedia mesmo. Mandou tomar banho, sem gastar muita água e depressinha que o serviço esperava.
Espera, eis aí uma coisa que conheço bem. A fila para entrar, ser atendida e sair. Parece a vida, essa fila. Atendida? Sim, não entendi bem a papelada que rapidamente me passaram diante da vista. Ainda bem que não esperavam que eu lesse tudo aquilo. A fala baixa e codificada do servidor não compreendi, também. Não me olhou e nem ao papel que trazia. Papel, pois é, tanto papel! Parece que é até assim como a pele do mundo, descascando.
Tem que ir lá ver como faz. É preciso ver no que vai dar. Terreiro de macumba, igreja de crente, reza pro santo, repartição pública, voto, em político e para Deus...
Tudo na mesma, uma fila comprida que a gente pega porque tem que pegar.
A conversa anda, mas a fila não e a zonzura de tanta história, de vozes, de tosses, gemidos e gungunados, arranhados por risadinhas indecentes, vai endoidando o redondo da cabeça e do mundo até girar, girar, girar numa fila sem fim nem começo, que sobe e desce rumo ao nada...
Onaldo Alves Pereira