quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Palha

As suas mãos cresceram por conta do trabalho duro, calejadas e modeladas para agarrar objetos resistentes e rebeldes. Elas sabiam escassamente o caminho das carícias, arranhavam quando pretendiam alisar, não acalmavam a pele do outro, assanhavam instintos, faziam querer fugir...
Escolhia uma palha longa e forte na espiga, com as unhas e as pontas dos dedos a rasgava miúdo. Arrastando a palha pelos cantos, atraía o gatinho que vinha desconfiado, armando o bote até dar a primeira patada. Depois, seguindo o movimento da palha com a cabecinha, orelhas em pé e os bigodes enormes, como antenas em prontidão, lançava-se todo à brincadeira. Eram pulos artísticos, papirotes no ar, negaceios e, fazeres de conta que havia perdido o interesse pelo brinquedo.
O barulho da palha no chão, o rebrilho dos olhos do bichano...
Os olhos dele nos meus e a palha muda de função. A cócega em meu nariz, o passeio dela pela nuca e por detrás de minha orelha, a pontinha escorregando pelos meus lábios, indo e voltando num passeio sensual. O bichano, aconchegado em meu colo, ronrona satisfeito e sou beijado pelos lábios que antes entresorriam, enquanto arteava com a palha, conquistando com a magia dela, o bichano e eu.
Onaldo Alves Pereira

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Dito

Foi-me dito que Deus sorri,
que se faz palhaço pelo nosso riso
Foi-me dito que no amplexo dos seres
Deus é sacramento bendito
Foi-me dito que de vera todas as Deusas
são Deus do mais puro amor
Foi-me dito que nos velhos casarões,
igrejas antigas e sítios do passado, Deus espera
Foi-me dito que na fome, no exílio
e na solidão, a Deusa se esconde carente
Foi-me dito que as piadas são anjos
mandados em missão graciosa
Foi-me dito que na oração a alma
se descobre seiva de Deus
Foi-me dito que o amor não reconhece sexo
cruzando as fronteiras, sempre mais amor
Foi-me dito que em todos os nomes
o Nome, em todas as religiões a Consciência
-Vá, me disse Deus, e diz isso
no Sorriso, faz isso na Vida
Gozo de puro amor.
Onaldo Alves Pereira

domingo, 28 de dezembro de 2008

Vencimentos

- No meu tempo não era assim. Não havia tanto vencimento. Hoje vence água, luz, prestação disso, conta daquilo. Dizia o cinqüentão, forte, encorpado, rígido na sua postura e ainda tesudo.
- No meu tempo - como se já estivesse fora da cronologia normal, numa outra dimensão. E, aí, desfiava, sem vontade de parar, as mudanças, os desencantos e esquisitices dessa época que não era a dele.
O vencimento das coisas contrariava mais. O estresse decorrente de se ter que manter tudo em dia é desgastante, pensa ele.
- No meu tempo, insistia, só havia sem remédio o dia de nascer e o de morrer, o plantio e a colheita. Fora isso, tudo se ajeitava.
Amado por esposa e filhos, já com neto, cachorro e gato, não se julgava bem servido e arranjara amante. Queria dela o frescor das carnes, o beijo macio e o apertadinho das partes. Recebia tudo isso, mas brochava toda vez que chegava o dia dos vencimentos. No tempo dele não brochara nunca, que não vencia nada que custasse fila, tempo e dinheiro.
Vencimentos à parte, a vida prosseguia, outros tempos, de outros jeitos.
Vencido ele, ninguém fazia fila, pagava ou se preocupava. Seria o caso, ingrato fato, de seu vencimento não caber nas normas desse tempo de outros?! Nem ser o objeto do vencimento valioso o bastante para despertar noutros a obrigação de quitar o devido?!
- No meu tempo...

Onaldo Alves Pereira

sábado, 27 de dezembro de 2008

O bem na marra

Difícil entender o porquê dos seres humanos terem aprendido a fazer o bem a si mesmos na marra. Como pode ser que regras mínimas de organização do meio que visam facilitar a vida de todos tenham que ser impostas por lei?É doentio que atos de amor próprio tenham que ser obrigados. Exemplo disso as regras de trânsito, ignoradas, não obstante os riscos e as punições.Parece ser a proliferação do vírus da crença (às vezes inconsciente) num céu e num inferno a responsável por esse terrível desarranjo da mente. Por força dessa mentalidade, vai-se para o céu por medo do inferno, entra-se pelas portas do paraíso tostado pelas chamas da danação eterna, santifica-se pelo terror do mal, encontra-se Deus fugindo do diabo... Essa dinâmica terrorista é reproduzida na vida comum da humanidade, no dia-a-dia social e na elaboração das regras e leis.Aprendeu-se milenarmente a amar por lei, inclusive a si mesmo. Temos nisso a fonte de infelicidade mais terrível.
Onaldo Alves Pereira

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sinal de Batom

Sinal de Batom
Sinal de batom no banheiro masculino?
é o fim do mundo
é o começo do descaminho
ou seria uma marca de liberdade?

Liberdade que acaba com o mundo
que finda o caminho
destramela os endereços
e beija os lábios de nova era.

Cabe reclamar ou apagar?

Ou chamar o mundo para que veja e se acabe?

Beijou o travesti a pia,
ou limpou ali seus lábios,
ou deixou cair o batom?

Nesse dilema extremo
finda o poder de pensar
de quem manda
e, desmandado, o mundo
mudo de resposta, cala e se acaba!
Onaldo Alves Pereira

Retratos


Sob o olhar assustado
dos antepassados
deu-se o fato
o desatar dos nós
o revelar sem tato
dos gostos do mocinho.
Pendidos de retratos
velhos, desbotados
pecados abotoados
tudo empacotado
entendem
e apóiam agora
que o mocinho
goste de outro mocinho,
mas se assustam
com o susto
dos que não entendem
e, da parede,
rezam para
que o beijo seja curto.
Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O barro


No barro, o que parece ser a sua fraqueza, a sua maciez, é o seu potencial, o seu vir a ser.
Assim também somos entregues a nós mesmos como matéria prima. Deus nos prepara e deixa no ponto para que façamos de nós o nosso desejo. Nesse fazer entram os aspectos internos e externos da fábrica que nos produz.
Às vezes, o barro endurece e tem que ser molhado e amassado de novo. Noutras, fatores alheios à vontade arranham ou quebram a obra em andamento.
Continuamos, contudo, sempre uma possibilidade para melhor, uma oportunidade para a nossa arte de querer, sonhar e trabalhar.
Deus jamais negligencia o andamento de sua encomenda e auxilia no que pode e, quando necessário, para que não desande o seu final.
Onaldo Alves Pereira

O mundo vai bem e melhorando!


Aparentemente o mundo encontra-se conturbado por violências sem tamanho. Guerras, conflitos, assaltos, repressão, fome, abuso de substâncias e preconceitos fazem as manchetes dos meios de comunicação. Está à beira de um apocalipse digno dos profetas enlouquecidos. Carecemos medidas mais drásticas, discursam os políticos. Sem remédio; concluem os céticos.
Milhões e milhões de pessoas, contudo, continuam amando, constituindo famílias e cultivando amizades. A dedicação de milhares alivia voluntariamente a dor dos desvalidos. Na absoluta maioria das cidades, as pessoas podem andar sem assombro pelas ruas. Em casos de tragédia natural o socorro não tarda e a solidariedade é a regra. Desentendimentos são resolvidos pacificamente pelo diálogo. Uma nova consciência ecológica reorganiza o mundo. Mais amor, ternura e companheirismo do que se imagina cimentam as relações humanas. As diferenças são respeitadas e o seu espaço garantido por convenções sociais. A ciência avança e traz conforto e cura para a humanidade. A dinâmica e os frutos dessa realidade, que é, de fato, dominante, não ganham as manchetes porque são o comum. Dar-lhes enfoque seria como noticiar em primeira página o nascer e o pôr do sol. Fazer de esse fluir natural das coisas o assunto preferencial seria como dizer como novidade que: o verde é verde, a água molha e as estações se seguem. O óbvio da vida é tido como dado pacífico e tende a passar despercebido, a não ser quando colocado contra um contraste. O mais trágico de tudo é que a religião capitaliza nas exceções e decreta, por força delas, o fim do mundo. Indo mais longe, declara corrompido o ser humano, perdido sem apelo, a não ser que - e lá vem o golpe! - busquem o socorro que oferecem. Socorro que tem um preço altíssimo, a própria dignidade humana é golpeada por uma exigência de entrega e de submissão irrestritas. Estabelece-se, então, uma nova ordem de senhor e servos. Os últimos, mantidos sob suspense “no temor de Deus”, até que passem desta para melhor, sempre obedientes às regras da religião. Isso rouba dos seres a possibilidade de serem deveras feliz.
A boa espiritualidade, pelo contrário, proclama a bondade de Deus e da Vida. Afirma a capacidade inata e poderosa dos seres de ser o melhor e, de progredirem nisso com alegria. Ela diz que a semente que brota e cresce numa árvore frutífera não é inferior nem menos perfeita que a árvore, antes, a contém inteira em si. Da mesma forma, o ser cresce, não a partir de uma imperfeição, mas da perfeição que há em quem o idealizou e criou: Deus. Os que falham, as sementes que não brotam, é porque não estão colocados em ambiente propício. A boa espiritualidade, a arte e a educação são criadoras desse ambiente propício, lugar onde o melhor das pessoas e do mundo encontra estímulo e alimento para se manifestar e progredir. Nisso Deus faz-se inteiro, presente e atuante no mundo, na afirmação do Bem e na ação conseqüente.
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Boca

Boca
Essa boca só se sabe boca
pra receber seus beijos
sem beijos se perde
no comum bobo
no nada de sabores soltos
como contas sem cordão
no pouco de falas tolas
como cordão sem contas
É sua boca que faz minha boca
é seu beijo a alma dela!

Onaldo Alves Pereira

Dex’eu


Dex’eu
- Dex’eu metê nocê, sô. Num vai duê não, dêxa, só um mucadim, pruciminha, dêxa, sô. Dêxa, sinão choro. Tadim de mim. Eu ponho guspe pra num duê, dex’eu te cume, sô.
Onaldo Alves Pereira

Palha

As suas mãos cresceram por conta do trabalho duro, calejadas e modeladas para agarrar objetos resistentes e rebeldes. Elas sabiam escassamente o caminho das carícias, arranhavam quando pretendiam alisar, não acalmavam a pele do outro, assanhavam instintos, faziam querer fugir...
Escolhia uma palha longa e forte na espiga, com as unhas e as pontas dos dedos a rasgava miúdo. Arrastando a palha pelos cantos, atraía o gatinho que vinha desconfiado, armando o bote até dar a primeira patada. Depois, seguindo o movimento da palha com a cabecinha, orelhas em pé e os bigodes enormes, como antenas em prontidão, lançava-se todo à brincadeira. Eram pulos artísticos, papirotes no ar, negaceios e, fazeres de conta que havia perdido o interesse pelo brinquedo.
O barulho da palha no chão, o rebrilho dos olhos do bichano...
Os olhos dele nos meus e a palha muda de função. A cócega em meu nariz, o passeio dela pela nuca e por detrás de minha orelha, a pontinha escorregando pelos meus lábios, indo e voltando num passeio sensual. O bichano, aconchegado em meu colo, ronrona satisfeito e sou beijado pelos lábios que antes entresorriam, enquanto arteava com a palha, conquistando com a magia dela, o bichano e eu.

Onaldo Alves Pereira

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Mais importante


Mais importante
O ser humano é mais importante que a verdade,
que a ética,
que o bem,
que, de fato, dependem
do ser humano
pra ser
a verdade
a ética e
o bem!
Onaldo Alves Pereira

Comportamento


O comportamento da hora é oficina de situações futuras. Um suavizar das maneiras, um muito obrigado dito com ênfase, um por favor sincero, um elogio e, mesmo o tom da voz, influenciam o bem estar mental e material dos envolvidos. Essa suavidade estudada aplaina as arestas e tem o condão de desestressar.
Por outro lado, a palavra dura e fora de lugar cria uma cadeia de reações estressantes que, findam traduzidas em má saúde e conflitos.
Muitas vezes as pessoas se surpreendem com situações aparentemente injustificadas, acontecimentos desagradáveis que brotam do “nada” e se desdobram em todo tipo de prejuízos. Mal sabem que elas são, de fato, criações desses pequenos demônios que são as palavras ruins ou a falta de palavras boas.
Eis aqui um campo a ser trabalhado com todo o esmero e cuidado, o do uso das palavras e o polimento dos tons e das atitudes.
Onaldo Alves Pereira

O alto


Na geografia de muitas crenças o alto é o lugar de Deus e o baixo o lugar do diabo. Olha-se para cima, para lá sobem as orações. Pensamentos altos, idéias elevadas, comportamento acima do geral, tudo isso é exaltado. Diante do altar, que coloca além do alcance dos fiéis a imagem do santo, ou o pregador no púlpito sobre a congregação, dobram-se os joelhos, curvam-se as cabeças e fecham-se os olhos.
Lá no alto está tanto o templo como o palácio, a cidade, como o mosteiro, a ermida como a guarita policial, a mansão do rico e o cruzeiro, o Cristo Redentor no corcovado e a Capital Federal no Planalto Central. Lá em cima, o trono, seja de Deus ou do poder político/econômico. Esse lugar, do que tudo vê e por todos é visto define o centro da geografia espiritual tradicional. De olhos fechados para não cobiçar o ouro do trono ou a comida dos banquetes, dobra-se os joelhos para dizer que até a altura que lhe é normal ainda ofende o poder.
Diante disso a Boa Consciência diz que Deus está onde estão seus seres e neles, que tanto em baixo como em cima a Presença é a mesma. Ela deseja destronar os poderes, porque são ofensivos à realidade da plena e absoluta Presença de Deus na Vida que é a vida dos vermes como o é, na mesma escala e valor, a dos anjos. Nisso a nossa dignidade biocomunitária!
Onaldo Alves Pereira

Dois em um


A mulher grávida é a metáfora perfeita do que ansiamos espiritualmente. Queremos ser o feto vivo no mundo e ter em nós o mundo como feto vivo. Um em dois e dois em um, o encontro que reorganiza a vida.
A desorganização da vida é um privilégio nosso. Como quem embaralha as cartas para o jogo, ou as peças do quebra-cabeça, nós, em nossa liberdade, nos preparamos para o sublime jogo da reorganização, ato autônomo, também de nossa liberdade, que nos individualiza e torna pessoas. Isso acontece como um exercício de aprendizado.
Onaldo Alves Pereira

A espiritualidade precisa de alguma certeza?


A dúvida, também, quando bem administrada, traz espanto, reverência e aprofunda o sentimento.
A certeza, às vezes seca, estanca o espírito, fecha seus olhos e retira a sua capacidade de abstração.
A dúvida e a certeza são veículos. Elas não são um fim em si. Quando as fixamos entramos num processo de “morte” espiritual.
Tanto a certeza quanto a dúvida, estagnadas, tornam-se um caldo vital para os fanatismos, os dogmas, as exclusões e os sistemas de pensamento fechados.
A certeza que duvida e, dinâmica, progride, aperfeiçoa a espiritualidade e melhora o ser humano. Assim avança a ciência.
A dúvida serena areja e abre o espírito para o infinito e, o leva a mais e mais. Assim progride a sociedade.
A experiência da vida em aberto é a mais sadia e essencial das virtudes. Ela cria espaços para a curiosidade e ajuda na apreciação do diferente.
Tanto a pessoa que crê sem duvidar como a que de tudo duvida, caiu presa do fanatismo e vive numa caixa que julga ser a verdade, o bem e a justiça. O seu tamanho é o tamanho da caixa, infelizmente.
Somos para mais que qualquer caixa e nenhum sistema religioso ou ideológico nos cabe por inteiro.
Faça um buraco em sua caixa e respire ar puro! Esse ar oxigenará seu espírito e mente e você verá Deus!
Onaldo Alves Pereira

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Nenhum ter que


Ter que:
fazer sexo;
não fazer sexo;
ganhar dinheiro;
abrir mão do dinheiro;
amar;
odiar;
é pretender ser o que não se é e, laborar a própria infelicidade.
Nenhum “ter que” ajuda a aperfeiçoar quem somos e nem melhora o caráter de alguém.
Ser conforme somos. A rosa desabrochando na sua hora, a chuva caindo quando é de cair, eis o movimento da vida.
Onaldo Alves Pereira

O Deus que é mais

Surgindo do vapor que sobe de uma caneca de café recém-coado, o rosto de Deus vem deliciado! Deus veio participar comigo desse prazer e quase que não me sobra nada do café!
Onaldo Alves Pereira

Passos miúdos


É preciso acreditar em passos miúdos; é necessário praticar passos miúdos em querendo se chegar ao mistério do Lugar Precioso – que é o ritmo do coração da Vida.
Com passos miúdos é costurado o mundo, é nesse compasso que fica inteiro e, é nesse ritmo que se ajuntam pequenas e grandes criaturas. Amiudando os passos reencontra-se o equilíbrio do sorriso, do choro e do saber-se parte de mais do que só isso!
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O apego é bom


Há que se apegar às coisas que têm valor e também às que não têm, para que passem a ter. As religiões têm ensinado o desapego e a doação a partir disso. Ora, só realmente doamos aquilo que tem valor para nós, aquilo a que não nos apegamos é resto, não vale à pena doar. Quanto mais de nós for numa doação maior o dom. Aquilo a que mais nos apegamos mais qualidade ganha. Portanto, o apego é amor.
Onaldo Alves Pereira

A verdade humana


Está nos extremos a verdade humana? Ou no meio termo das coisas? Ou no fim, no acabado de tudo?
Donde o ser humano mais completo, no que definha e já tem os sentidos embotados e o corpo definhando, restando-lhe apenas o que de fato é? Ou no que nos seus vinte anos desabrocha pleno de beleza, força, fertilidade, sonhos e possibilidades? Onde encontrar o verdadeiro ser humano?
Acho que a medida, qualquer delas, é incapaz e insuficiente, porque enquanto for possível medir estar-se-á aquém. A verdade do ser humano extrapola mesmo a necessidade e ou o desejo e a possibilidade de medir, está além e aquém dos lugares comuns criados pelo mito do poder. O próprio conceito de verdade é pouco.
Onaldo Alves Pereira

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Depósitos especiais da Presença


Os seres, em alguns estágios da vida, transformam-se em eficaz depósito da Presença Divina, enquanto graça e energia vivificadora à disposição do mundo.
Como flores, frutos, sementes, filhotes, apaixonados, no cio, grávidas, idosos, fragilizados e moribundos. Aproximar-se dos seres nesses momentos especiais, em agrado e serviço, abençoa a quem o faz e aos seus.
Talvez não haja no mundo meio mais gracioso de Deus vir sorridente ao nosso encontro, do que através desses veículos privilegiados!
Onaldo Alves Pereira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cuidar do mundo


Queremos zelar pela integridade de todos os seres e coisas como zelamos pela nossa felicidade.
Quem cuida bem de um móvel reforça a beleza do mundo e o faz espaço mais amigo da felicidade. Limpar um curso d’água é limpar o rosto de Deus, para ver o Seu sorriso!
Tirar a poeira de um quadro é soprar da alma humana o que lhe empana o brilho.
Consertar uma calçada é abrir o caminho da vida.
Plantar flores planta bem-estar no meio, alimenta as abelhas e delicia a mente humana.
Panelas bonitas enriquecem o sabor dos alimentos e vitamina as boas qualidades.
E assim, nessa atitude, vai sendo bem cuidado o mundo!
Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Você não é bolo de caixinha

Superabundam as receitas do bem viver. Como lidar com os filhos e filhas na infância e na adolescência. Como namorar, casar e separar. Como envelhecer e, até morrer.
Quase todas as receitas são prolixas nas recomendações e dogmas. Sobram os: faz isso, não faz aquilo.
Sujeitar-se a um desses métodos significa, muitas vezes, sobrecarregar-se ainda mais de expectativas, deveres e etc.
Fiz tudo certo e não obtive o resultado!
Não consegui obedecer as regras e deu no que deu!
O problema deve ser comigo.
Ele/a não tem mesmo jeito.
Até o mundo espiritual está no mercado com essas receitas: novenas, correntes, votos, etc.
Nunca o problema do não funcionamento da receita está nela, mas no pobre coitado que falhou em algum ponto.
Livros de auto-ajuda vendem uma felicidade e prosperidade sob medida. Seguidos os conselhos, você será e fará feliz!
Bobagem tudo isso!
Alguns conselhos até que podem ajudar, mas qualquer receita infalível só piora tudo. Você não é bolo de caixinha e olha que até esses, não obstante seguirem-se ao pé da letra as instruções, podem desandar.
Simplificar e naturalizar as expectativas, trazer para o chão os conceitos de felicidade e de bem-estar, contextualizar o dia-a-dia nos seus limites, sem anular os sonhos e nem deixar-se dopar por eles, isso sim, ajuda.
Mais feliz é quem melhor convive até com a própria infelicidade e é capaz de surpreender-se, grato, com as novidades que sinalizam novas possibilidades.
Onaldo Alves Pereira

Apreciamos


Os palhaços, os clowns, os arlequins, as colombinas, os momos, as marionetes e os bonecos de vara e de cordões.
Que o jocoso provoque o riso e traga à baila o lado engraçado de todas as situações. Que se permita rir do sério, fazendo dele um equilibrador capaz de curar a mente das fobias e dúvidas que lhe assustam.
Apreciamos desfazer as caretas com gargalhadas, inventar piadas sobre tudo e abrir picadeiros em todos os cantos, dos templos às cozinhas.
Que, contudo, não se discrimine o fraco, as diferenças ou as sensibilidades e nem se faça anedotas que depreciem pessoas por sua cor, sexo, raça, nacionalidade ou religião.
Apreciamos a comédia como mensageira de uma mente progressista, leve e pacificadora.
O sorriso, o riso, a gargalhada e o soltar do espírito.
A beleza do Sorriso de Deus em nós organizando para melhor o mundo.
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Como se fosse o primeiro amor


Viva cada dia como se fosse o seu último. Essa máxima, tão do gosto de quem pretende chamar para uma maior dedicação e qualidade no agir diário, usa como elemento valorizador a escatologia. A morte vira estímulo e, o fim das coisas o seu qualificador.
Essa é uma mentalidade que desvaloriza a vida. Ao colocar a morte como o filtro final a vida ganha o caráter de qualquer coisa, fica desimportante a não ser sob a foice da “madame”.
Talvez fosse preciso aprender que cada dia é um valor em si, que não carece pressão escatológica alguma para ser o melhor.
Além disso, se algum estímulo é necessário, que tal apelar às primeiras coisas. Viva hoje como se fosse o primeiro dia de sua vida, o seu primeiro amor, a sua primeira viagem etc!
Onaldo Alves Pereira

A favor


Acostumamos-nos a crer que engajamento é estar contra algo, envolvido com algum problema. Isso também, mas não só. Mais importante é estar apaixonado por algo agradável, belo e sadio. Essa militância no bem é mais eficaz na transformação da sociedade do que qualquer outra.
Não podemos passar a nossa existência na zona do contra. Alvo dos que são contra ou contra o que esta aí. Nesse estado está a infelicidade mais brutal, todas as raízes da amargura nele encontram terreno fértil e profundo.
Romper com isso e ser a favor, crescer a favor e buscar o que nos é favorável é saudável exercício de felicidade.
Isso pode significar ter que deixar de lado as estruturas de pensamento e de poder exclusivas e fechadas, desistir de convencê-las e sair do rumo de seus ataques.
Criar um espaço novo é caminho!
Onaldo Alves Pereira

Só reconheço a autoridade do amor. Toda outra tentativa de poder é usurpação!

A favor


Acostumamos-nos a crer que engajamento é estar contra algo, envolvido com algum problema. Isso também, mas não só. Mais importante é estar apaixonado por algo agradável, belo e sadio. Essa militância no bem é mais eficaz na transformação da sociedade do que qualquer outra.
Não podemos passar a nossa existência na zona do contra. Alvo dos que são contra ou contra o que esta aí. Nesse estado está a infelicidade mais brutal, todas as raízes da amargura nele encontram terreno fértil e profundo.
Romper com isso e ser a favor, crescer a favor e buscar o que nos é favorável é saudável exercício de felicidade.
Isso pode significar ter que deixar de lado as estruturas de pensamento e de poder exclusivas e fechadas, desistir de convencê-las e sair do rumo de seus ataques.
Criar um espaço novo é caminho!
Onaldo Alves Pereira

Só reconheço a autoridade do amor. Toda outra tentativa de poder é usurpação!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Procura


Procura
as trilhas mais desertas
os pensamentos mais abertos
de todos, o sabor que mais apela
a vista que suaviza as outras
o sorriso que consegue desarmar
mãos que saibam semear
olhos famintos por arte.

Verga, então,
teu lombo ao fardo
os mastros das bandeiras
as cercas das divisas
o orgulho de ser dono
e será vasilha
na fonte da vida
concha que enche
o oceano da vida!
Onaldo Alves Pereira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Anoitecer


O anoitecer faz “humm” de gostoso e derrama seu dourado pelos cantos antes de puxar sobre a terra seu manto escuro. O gorjeio dos pássaros sinaliza a hora do ninho. Os aromas acentuados oferecem-se sobrando.
A estrada fica mais comprida para os pés que voltam pra casa. Os amores acordam dos desvios do dia e sabem amar melhor. Debruçados nas janelas, os bem-quereres esticam os olhos.
Bichanos e cachorros acordam do calor da tarde e brincam, espoletas.
Temperos refogados harmonizam o lar.
O que resta do dia faz beicinho de abuso e esconde a cara no regaço da serra.

Onaldo Alves Pereira

Deus


Monoteísmo
A crença num Deus único, o monoteísmo, é, sobretudo, um instrumento final de poder. Crendo-se num Deus único, decerto que este será o meu, o da minha religião, o da minha pátria. A missão de converter outros ao meu Deus implicará também o reconhecimento da superior revelação que trago, por conseguinte, cultura mais avançada, o que desaguará na raça eleita, escolhida para ser receptáculo dessa revelação. Sendo único não tolerará a diversidade, o argumento contrário e nem a possibilidade de equívoco, esse único Deus, portanto, é a arma de dominação mais forte.

Deus, Deus
Todos os Deuses são Deus. A misericórdia de Deus proíbe que seja doutra forma. Invente hoje um deus e Deus o absorverá em Si, fazendo com que seja Deus!!

Criando Deus
Não há sobra de mim
sou/estou em Deus
e Deus em mim
Deus me criou
e eu o criei
no amor.
O amor pode criar Deus
criando o amor em mim.

Creio
Creio na Comunidade Divina, à qual chamamos Deus/Deusa/Deuses. O Bem na multiplicidade e a multiplicidade no Bem. A Vida criadora de vida e a vida manifesta em todos os espaços.

Rir
Rir de Deus é essencial,
se Deus não pode ser feito piada
não é deus que preste
para ser Deus.

Criar Deus
Vamos criar Deus à imagem e semelhança de nosso melhor amor, de nosso amor sonhado, de um amor que só é amor no encontro de dois seres. Em Deus o encontro é maior, mais se encontram apaixonados para ser o Ser, para fazer a Comunidade Divina. E Deus, criado apaixonado, há de apaixonar-se por nós e, nisso, trazer-nos para a Comunidade Divina.

Onaldo Alves Pereira




Criei tudo isso!

Um clarão. Zumbido de abelhas. Passarinhos em revoada. As folhas dos buritis em aplausos desafinados. Ventania. O ar carregado de energia. Relâmpagos. Ajuntamento de nuvens carrancudas. Uma vozinha miúda pergunta assustada:
- Posso ficar com você?! Sem voz para responder, apenas aceno que sim.
Mãos pequenininhas me agarram o braço e um corpo tremente se achega ao meu.
O mundo desaba em pedaços de luz, de água e muito vento para espalhar tudo. E a vozinha, mais diminuída ainda, me diz entre alegre e assustada:
- Eu criei tudo isso.
Que Deus!

Onaldo Alves Pereira

sábado, 6 de dezembro de 2008


O picolé e a beleza
“- Coitadinho, tão bonito e vendendo picolé!”
Essa observação, tão comum e diversificada, parece sugerir que a beleza confere privilégios especiais. Que o “bonito”, de acordo com os valores estéticos de consumo em nossa sociedade, é merecedor de algo melhor que o comum das pessoas. Por outro lado, o “feio” é capaz de agüentar mais, de sofrer “naturalmente”, como se isso fosse acessório de sua “feiúra”. Essa valoração estética segundo os critérios do mercado é excludente e adoece o corpalma individual e o social, criando desequilíbrios infelizes! Para o nosso bem, precisamos devolver à beleza a sua plasticidade e surpreendente gama de nuances, para além do que ditam o mercado, a religião e a política!
Onaldo Alves Pereira

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Chapéu
O moreno descia a ladeira, chapéu na mão. Ele vinha de légua e meia de chão. Passava o moço por cerrado tanta fruta, alguma flor. Chapéu que não era só isso.
Trazia muricis graúdos, pitangas e cajuzinhos, o chapéu.
Estendia o chapéu, encolhido num arredio ousar, o moreno: “Procê!”
Vindo à sombra de seu corpo suado, temperado pelo seu sorriso, era do campo o sabor desse bem querer: “Procê!”
Chapéu de murici
querendo beijo de pitanga,
puxando sabor de cajuzinho,
esse agrado de bem querer!
A moça percebia e ia ser a fruta do chapéu.
Onaldo Alves Pereira

O dia


Arreliado, o dia
deu de si
menos de mim

Empoucado, eu
tirei doutros
minguando a todos

Arredado de mim
sobrei nada
fiquei sem ser

a flor
a dor
o sorriso
a fome

deles tão forte
o que de mim não senti
vai o dia

Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Caluda!


Caluda! Chegou a última palavra. O que era esperado por todos os séculos e sobre cuja vinda todos os profetas falaram.
Essa proclamação é repetida através dos milênios enquanto várias figuras afirmam: “Sou eu!” E, outros dizem: “É ele!” Sim, estranhamente sempre ele, um homem. As mulheres parecem não “qualificar”para a missão. Ou será que não é porque são mais espertas e não caem nessa?
A mensagem completa, a última revelação, o enviado é sempre o da “minha religião”. Vivo e acenando sorridente para seus adoradores ou morto e com a sua imagem fanaticamente protegida, o “único” parece ser uma obsessão que ainda provoca guerras, guetos e exclusões. Na realidade, esse “único” é um desvio, pois tira a atenção da única, primeira e última mensagem que importa: a compaixão e o amor! E isso nem precisa de religião!
Há de chegar o momento quando serão calados todos os mensageiros e seus discípulos e tomara seja logo.
Será abafada a sua cacofonia com um ato só, um apaixonado beijo na boca! Esse beijo calará os profetas, renderá inútil o messianismo e transformará em piada toda a sua pregação! Nada conseguirá desviar a atenção do beijo.
Beijo à moda e no sabor do agrado de cada um. Beijo inteiro, amor realizado!
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Nu


Quando o moral fica reduzido à roupa, falido fica o bem da vida. Vestida ou nua, por costume cultural ou desejo, a pessoa vale mais que o que nela salta aos olhos. Belo corpo vestido com arte, bonito corpo desnudo com candura. Lindo erotismo do vestir-se com pudor. Magnífico corpo pelado como a flor, agradável corpo, guardado em discreto resguardo.
Belo é o corpo velho, como o novo, as rugas enfeitam tão bem como a tenra pele e, treinar-se para assim enxergar o corpo é exercício espiritual dos mais elevados!
Deus é de bem com o que idealizou: a bela nudez, como a capacidade de cobrir-se com enfeitado capricho. Com os efeitos do tempo, ou outros fatores, o corpo é sempre mais que o que parece ser. Nu ou vestido do mais fino tecido ou, em trapos coberto, é mais o corpo.
No aroma da malva fresca!
Onaldo Alves Pereira

A voz mais mansa


Atenta sempre para a voz mais mansa, propondo a ação mais calma, desanimando das estripulias e, poderá seguir o bom caminho da paz. Essa voz vem de dentro, da presença sagrada que mora em cada criatura. Ouvi-la é uma arte, requer ouvidos afinados e pacientes. Crescer na capacidade de não gritar, nem consigo mesmo, aquieta a alma. O silêncio organiza para melhor a voz e, a brandura da simplicidade a torna boa. Assim é favorecida a Vida!
Onaldo Alves Pereira

Quão gracioso o caminho que se desdobra em mil para não deixar ninguém de fora!

O mundo está organizado de forma hierárquica?


O ser humano tende a hierarquizar as coisas de acordo com o grau de conhecimento que tem delas. O que conhece ou julga conhecer bem e, conseqüentemente, domina melhor, coloca no topo da hierarquia. O primeiro lá é o Deus feito à imagem e semelhança do macho guerreiro, voraz, iracundo e tresloucado, porém todo poderoso. Esse Deus é bem conhecido do ser humano porque construído caprichosamente para ser o seu mais eficaz instrumento de dominação. No limite de seu tamanho brande Deus. Em nome de Deus! Feito à imagem e semelhança desse Deus o ser humano é “o tal”.
Em nome dessa entidade grosseira foi escrita uma historia de horrores. Sangue é o elemento mais abundante nessa história, a começar pelos sacrifícios de animais, de outros humanos e prosseguindo pelas guerras santas até que o próprio Deus tem que derramar o próprio!
O segundo na hierarquia é o “homem”. Aliás, espertamente, ele se coloca em segundo para jogar sobre um suposto primeiro a culpa e o poder final, isentando-se a si mesmo da responsabilidade.
Depois vem a mulher, a prole, os empregados, os diferentes, os fracos, o outro e os “reinos inferiores”. Quanto mais distante dos fins imediatos do homem e quanto menos entendido mais “inferior”.
Num certo momento começa todo um jogo de palavras, conceitos e idéias, com o objetivo de colocar cada coisa em seu lugar. Ser vivo, matéria morta, vida no planeta terra, ausência de vida fora dele. Inteligência e raciocínio versus instinto... tudo para emparedar de fora o que ignora, para obter licença para explorar e destruir.
Diferente vira inevitavelmente sinônimo de inferior, isso até no âmbito cultural. As culturas primitivas, os selvagens etc.
Essa visão tensa tem colocado o ser humano numa situação absolutamente impossível. Ele tem que dominar, que ser a coroa da criação e isso, produz a maior angústia da alma humana e, desencadeia os piores conflitos sociais e ambientais.
O outro, o diferente é apenas isso: outro e diferente. O nosso conhecimento do outro tem o nosso tamanho, segue os caminhos de quem somos e é fruto de nossa estrutura. O conhecimento nunca poderá ser absoluto porque nem a nós mesmos conhecemos bem.
Falta-nos a combinação da visão de dentro com a visão de fora. Não conhecemos o projeto original. Não sabemos nem o mecanismo que cria a química de nosso cérebro. O conhecimento humano é essencialmente uma técnica de sobrevivência. Poderia ser também a técnica do prazer, mas a maioria não quis ainda chegar lá.
A preguiça intelectual e a arrogância, numa mistura demoníaca levam o ser humano a julgar inferior àquilo que não consegue destrinchar. Essa obra de inferiorizarão atinge o próprio ser humano. O medo da morte e a falta de compreensão do que realmente seja levou ao desprezo do corpo: “miserável homem sou, quem me livrará do corpo dessa morte?!” Lamentou Paulo, o apóstolo. Se o corpo é inferior daí, o que lhe dá origem, o sexo, é o pecado maior, o fruto proibido. Sendo matéria desprezível o corpo pode ser dominado. A pobreza é bonita porque diminui, principalmente, o regalo do corpo.
Espertamente, uma minoria transforma isso numa política de poder. O clero e os ricos explicam o porquê das coisas serem como são e, por deterem o suposto conhecimento delas, podem mandar e, sobretudo, ter o que os outros não têm.
Sempre em nome de Deus. O começo e o fim das coisas ditas na Palavra de Deus. Do Deus que precisa de um outro, contrário, para administrar a confusão do que não consegue explicar. A pior criação humana, esse Deus, nega o Deus que, houvesse uma hierarquia, estaria na base, para carregar e não deixar perder nenhum de seus seres.
Esse mito não é inevitável. Podemos, e só podemos, viver sem ele. Senão fonte de todos os desencantos humanos, esse mito é, pelo menos, a mãe dos piores. O ser humano é melhor do que isso, e o mundo não merece esse flagelo.
Livre para apenas ser e gozar, o ser humano, dentro do conjunto onde se encaixa perfeitamente sem ter que se medir com ninguém, estar acima ou abaixo, dono ou possuído, somente parte, maior, portanto, do que crê ser ao querer sair do meio, porque, de fato é o todo, seria muito mais feliz até em sua infelicidade!
Dizer não a essa hierarquia é essencial!
Onaldo Alves Pereira

domingo, 30 de novembro de 2008

Sol e nuvens



Os cachos de arroz bebem sol
dourados de branco miolo
morrem de amor

As laranjas açucaradas
do sol tomam a cor e o sabor
e se oferecem todas, puro amor

As nuvens abaixam-se
dão garfadas no chão
e arrotam, que foi bom.

Onaldo Alves Pereira

Ter por inteiro


O consumismo explora a superficialidade humana, a incapacidade de parar, degustar, retirar o máximo de cada bocado. Compramos um bolo duma vitrine cheia de quitutes, entre todos, o mais vistoso; damos uma mordida e já queremos outro. Esse desejo rouba-nos grande parte do prazer atual e real do que estamos recebendo; o desprezamos antes de chegar ao seu recheio. Isso é assim em todas as esferas da vida, minguando nosso prazer, desencadeando ansiedade, gerando conflitos internos e externos. Querendo ter mais sem termos aproveitado ao máximo o que temos e saindo em busca disso, de fato perdemos tudo. Pois, na fatia de uma maçã temos ela toda, se na fatia somos capazes de receber a totalidade de seu sabor, perfume e textura, sem a ânsia pelo próximo pedaço, que pode vir calmamente.
Seguindo esse pensamento, onde me cabe é o meu reino, não necessito mais do que isso, se mais me vem é privilégio gratuito.
Transformar cada passo em um passo para novas oportunidades, cada vista como a mais interessante no momento, cada pessoa como um convite de amizade ou convívio respeitoso (a indiferença também vale!), cada refeição como um presente, cada trabalho como arte (nem só o agradável é arte), eis aí o segredo simples da maior felicidade (felicidade que inclui o sofrimento). Isso, contudo, não deve ser um arremedo, ou fazer de conta, ou um estar cego aos limites, fraquezas e defeitos de cada situação. Ver algo ou alguém como o melhor, significa compreender, inclusive, os seus defeitos. Buscar a perfeição ideal é cair no mesmo círculo escravizante e destrutivo de se querer sempre o que não se tem no momento!
Onaldo Alves Pereira

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Em construção


Em construção
Quando vemos uma casa em construção temos logo uma impressão de desordem e de caos. Materiais, ferramentas esparramados e pessoas fazendo coisas sem uma lógica imediata, embora implícita.
É assim também que, de primeira mão, enxergamos o mundo sendo criado – agora – por Deus.
Como resposta podemos desenvolver uma teologia apocalíptica ou tornarmo-nos alegres participantes da obra! Conhecedores que somos do plano que a guia, a Boa Mente de Deus!
Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tão simples e tão profundo!


A manifestação da Vida é a Verdade! A apreciação disso resulta nos instrumentos de busca que ajudam a progredir na Verdade: ciência, arte e filosofia.
Onde está o ser humano aí está a verdadeira Religião. A decodificação grupal ou individual disso cria as religiões.
Enfeitar o mundo a partir de si mesmo é a Espiritualidade mais perfeita. Orar é intensificar esse trabalho.
Deus, ou o Centro, não se acha nem se procura, pois é o Mais Presente, a Vida de nossa vida, a Alma de nossa alma.
Quando acordamos para a manifestação da Vida em nossas vidas aí percebemos tudo isso e sossegamos!
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O homem da Chiquita

O homem da Chiquita

Denso como uma barra de ferro, ele sabia pouco de si mesmo e menos ainda do mundo. A densidade também o fazia impermeável a sentimentos. Vivia por viver e topava pirraçar a existência como pudesse. Na maior força do tempo, quando acordado, comia, palitava os dentes, fumava e biritava.

Morava com uma enrabichada de alguns anos, dela sugava o que podia e a ela dava sexo de má qualidade. Alto, nos truques que as substâncias fazem nos miolos, ele enfiava a mão entre as pernas dela, tirava o pau pra fora pra ser chupado, quando dava subia nela, ainda meio vestidos ambos e gozava fedida gosma que ela sofria com asco.

Desaparecia por dias e voltava sempre bem vestido, relógio novo, jóias e algum dinheiro. Resmungava, um pouco mais satisfeito, que queria muita carne. Ela cozinhava costela de vaca com muito sal e muita pimenta, fazia do caldo pirão moreno e forte, que ele comia ininterruptamente até acabar.

Ela costurava pra fora. As freguesas comentavam sobre o homem da Chiquita e espichavam os olhos para dentro da casa querendo dele ver uma cena. Todas tinham uma passagem para contar. Entre mito e fato, o assunto rendia. Olhando figurinos nas velhas revistas de moda, elas passavam na sala de costura da Chiquita mais que a precisão.

Chiquita importava pouco ou nada com a situação. De como ele viera para sua vida, tinha história. Muita coisa carregava cada capítulo da novela que fora a sua vida e, em especial, o que dava entrada a esse personagem. Pouca gente sabia disso e ninguém dessa cidade, onde estava fazia tempo. Viera com o caso resolvido e encrencado.

Rapadura é doce, mas não é mole, dizia a uma ou outra freguesa, que não tinha amigos. Essa frase, único desabafo que se permitia fazer, era ricamente interpretada pelas exegetas da vida alheia.

Ele gostava de estilingues e os fazia com perfeição e arte. Trabalhava as forquilhas com figurinhas feitas a canivete e com arame em brasa. As borrachas e o courinho onde ia a pedra eram milimetricamente medidos e aparados. A gurizada da cidade disputava a tapas um estilingue feito por ele. um rapazola, beirando os dezoito, tinha acesso ao precioso material. Ele vinha em data marcada, pegava a caixa de sapato cheia de estilingues e os vendia aos garotos. Às vezes, ele parava a sua produção por uns tempos e os estilingues ficavam com preço inflacionado, com os mais espertos tirando proveito disso.

Começo de novembro, depois de Finados, a tarde veio coberta de nuvens escuras. Fez-se noite antes da hora e caiu o maior toró. Foi água como não se vira antes nas redondezas. Raios e trovões arrematavam o aguaceiro. Aterrorizada, a população correu cada um à sua devoção. A luz foi embora. O ronco da enxurrada misturado ao assobio do vento arrepiava até as almas mais duras.

Ao abrir a porta da cozinha para deixar entrar o gato que miava, uma das freguesas de Chiquita viu pendurado no galho baixo do limoeiro o pano que deixara com ela para ser costurado num vestido. Assustada com a visão sinistra ela entrou na chuva para apanhar o tecido e nisso, viu, à luz de um relâmpago, desses que fendem o céu inteiro, que vestidos, panos, linhas, fitas métricas e outros apetrechos de trabalho da Chiquita, muito deles conhecidos, enfeitavam os telhados das casas, os galhos das árvores, os postes de luz e até o cruzeiro da igreja. Tremendo, ela voltou pra dentro e contou para a mãe a visão. Ela abriu a janela para nela descobrir um pedaço de fita russa e, no que restava de um monte de tijolos, o brilho de um punhado de botões dourados.

Não agüentando a ansiedade do mistério e a previsão de uma tragédia, a freguesa saiu na chuva com a mãe, foi até a vizinha do lado para comentar o estranho acontecimento.

Aos poucos toda a vizinhança vira que uma fenomenal quantia de roupas, tecidos e material de costura estava espalhada por quase toda a cidade. Muitas, quase todas as mulheres, reconheciam algo de seu no emaranhado. Estranhavam que Chiquita tivesse tanto delas consigo, que coubesse naquela salinha modesta o que agora parecia não caber num galpão. Começaram, então, a pensar no porquê de terem levado tanta costura para Chiquita, que nem numa vida dariam conta de usar tanta roupa. Esse era o assunto, quando alguém abriu a torneira e gritou que dela saíam botões, agulhas e miçangas, ao que todos, cada um voltando pra casa, verificou que também era assim.

Amainara a chuva, restando apenas um sereno macio, iluminado por imensa lua cheia que empurrara de seu carão algumas nuvens, interessada que estava em assistir tão inusitado evento.

A luz fria, riscada por chuvisco fininho tornava aquele quadro ainda mais assustador. A estamparia dos panos e o comprido das linhas esticadas de uma árvore a outra, mudavam de tom e tremulavam como se tivessem vida própria.

No apuro da coisa nem lhes acudiu à alma o destino de Chiquita, seu homem e sua casa. quando era dia e ninguém atinara ainda trocar as roupas de dormir e nem coar café, um menino perguntou ao seu grupo cadê Chiquita. Se todo o seu trabalho estava espalhado pela cidade, então, o que não poderia ter acontecido à sua casa?

A casa estava intacta, rebrilhando com a umidade. Todas as portas fechadas, a janela da sala de costura aberta. Dentro da casa tudo nos seus devidos lugares, a sala de costura estava nua, sem móvel ou apetrecho. No quarto, sinais de que as malas haviam sido feitas. Haviam, decerto, partido.

Vagando que nem fantasmas pelas ruas, olhando tudo enfeitado com suas roupas, panos e aviamentos, entraram na igreja e deram com a máquina de costura de Chiquita cravada como uma jóia no altar mor e no confessionário, mil cento e um estilingues, os mais belos que jamais haviam visto.

Nunca tiveram notícias de Chiquita e de seu homem.

Onaldo Alves Pereira

Malemal

Malemal
Malemal equilibrado, aquele arranjo de cores, ia ameaçando espalhar-se pelo negro sujo do asfalto.
O carrinho lotado em sua capacidade e mais um milagroso pouco de frutas variadas e de flores algumas, uns pés de alfaces e, o que me interessava no momento, naquele caos, a Folha de São Paulo. Anunciando item por item numa cantinela entrecortada de gemidos e upas e ôpas, aos quase apocalipses do conjunto, a cada bacada, nessa volta ou naquele desvio, o vendedor fazia o seu comércio com sucesso. Comprei dele a Folha de São Paulo, como às vezes faço aos domingos, ao preferir não ter que caminhar até a banca.
Assim começa meu dia. Pretendo pouco dele, ler, prosear com os de casa, escrever, mimar os bichos, assuntar o tempo, puxar uma soneca e, é claro, estou aberto, sempre, a boas surpresas.
Onaldo A. Pereira

Padronizado


Vivemos uma época magnificamente rica em diversidades. A globalização tem colocado ao alcance de todos o mercado e suas ofertas modernosas. Via internet ficamos sabendo dos lançamentos da moda, da medicina e da eletrônica e podemos adquiri-los se tivermos dinheiro, é claro.
Isso tem um lado bom, democratiza o acesso à tecnologia. O mesmo acontece com as informações. Em tempo real assistimos o que acontece em qualquer recanto do Planeta.
Por outro lado, frustra ao percebermos que o que nos é disponibilizado segue um padrão de mercado e que há uma seleção do que “deve” interessar. Vá a uma loja e tente comprar um aparelho de som visualmente diferente. Não há! Tudo saiu de uma “forma” que reproduz uma estética cativa de algum “gosto tirano”. Predominam as cores prata e preto e o modelo é algo indefinido, mas dominante.
Esse é apenas um exemplo que se repete no vestuário, nos eletrodomésticos, nos móveis, nos automóveis, etc. Quanto maiores as possibilidades, mais faltam a criatividade e o diverso. Pobres de cores e de formas, as casas, os carros e as roupas são sem graça.
Na área da informação, apesar da ilusão de abrangência e alcance existe um filtro que seleciona o que nos deve “interessar”. Quem tem TV a cabo ou a satélite sabe disso. Gostaria muito de ver o que nossos vizinhos latino-americanos produzem na televisão, mas não há como ter acesso a isso. Como é o meio cultural argentino, por exemplo?! E o que o cinema mexicano produz? A música chilena, como conhecê-la? Como deve ser interessante o mundo europeu, seus países mais singulares, os eslavos, os nórdicos. Queria saber como vivem, o que os diverte, preocupa, desafia.
O pior nesse dilema é a sensação de não se ter a quem recorrer e nem possível mudança num futuro próximo. Fica-se no padronizado, na globalização seletiva e dirigida a partir de interesses que não os nossos. Aliás, nem é fornecido ao comum das pessoas o material para desenvolver um interesse diversificado, há uma sonegação da riqueza gloriosa do Planeta Terra.
Que seja de uma pequena maneira e com os recursos de que dispomos, façamos um esforço para que aconteça uma verdadeira globalização e seja desperto o interesse pelo diferente. Nisso, o sentido de unidade orgânica e anímica, revitalizado, há que ser fonte inesgotável de paz e de partilha entre as pessoas e os povos!
Onaldo Alves Pereira

Simplicidade


Simplicidade, em um mundo complexo e de múltiplas ofertas e demandas, não se consegue facilmente. Mesmo assim, simplificar a vida pode significar viver com sentido. Simplificar, contudo, não precisa ser uma ruptura com as demandas e ofertas. Não é necessário abandonar a cidade (mas pode também ser isso) e nem tornar-se monge ou monja. Aliás, as demandas e ofertas podem ser nossas aliadas e auxiliares na simplificação do dia-a-dia. A alta tecnologia, quando usada com equilíbrio, ajuda. Aproveitar a diversidade de comida em oferta, para saboreá-la (uma de cada vez) lentamente, é ótimo. Para isso, é bom priorizar qualidade ao invés de quantidade. Encarar a multiplicidade de coisas, eventos e oportunidades à nossa disposição como o que de fato são: ofertas e não obrigações. Desenvolver o poder de deixar para depois, conhecer o próprio limite de aproveitamento do que está em suas mãos. Saber que na partilha a conversa e o sentimento de se estar junto com o outro são mais importantes do que o material partilhado. A solidão algumas vezes aguça a necessidade de consumo e eleva o grau de descontentamento que, por sua vez, tenta-se remediar com mais consumo. Noutras, é bom e salutar estar-se só e não existe nenhum defeito nisso. Aliás, a melhor companhia pode ser a própria. Ter que se enturmar só descompensa as coisas ainda mais. Simplificar também pode incluir uma ênfase maior na intensidade do que no número de amizades.
Além de tudo, não se sentir pressionado, nem por discursos internos nem externos, que exigem isso ou aquilo. Por exemplo: ter que (ser obrigado) simplificar é tão ruim e, geralmente produz os mesmos resultados, que ter que consumir.
Onaldo Alves Pereira

sexta-feira, 21 de novembro de 2008


Primeiro o verde
Primeiro o verde, depois a casa. A casa plantada no verde, nele respeitosamente enraizada.
Apreciamos o verde e nele a casa com quantas cores quiser enfeitar-se. Pedir licença ao mato, licença às flores, ajeitar-se sem ferir. Poderosamente discreta, a casa pode ser legítima.
A rua, essa então, há que fazer seu curso rodeada de verde, dando espaço a grupos de árvores, desenhando com capricho canteiros de flores e, parando onde o verde não permitir que continue.
O verde primeiro, depois a casa e, ainda mais posteriormente, a rua.
A cidade é apreciada e feita bela quando, como pedra preciosa, é engastada na natureza, compondo uma jóia preciosa.
Primeiro o verde, depois a cidade.
Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sabor da fruta
O sabor da fruta é todo meu
que não se sabe se é dela mesmo
ou se brota de mim

Sendo dela, ela é minha
a fruta inteira
não sei se sou ou se ela é

A fruta perde a alteridade
eu me perco nela
sobra o sabor grande

Da vida, um pomar
eu nele, ele em mim
somos só sabor
e isso oferecemos.
Onaldo Alves Pereira
Obrigações
A sociedade nos obriga a muito. A religião, a mais ainda. A pior dessas obrigações, a que mais mal faz é a de se ser feliz!
Ser feliz é um misto de tudo o que a vida nos apronta e o que fazemos dela. Essa mistura nem sempre é só alegria e nem cabe nas expectativas da filosofia de auto-ajuda tão em moda.
Ninguém é feliz, mas todos podem ir sendo felizes. O tédio de uma felicidade absoluta faria a vida murchar e tiraria dela muito de sua arte.
Ser feliz por obrigação, reagir às ordens de “sorria!!!” para caber nos sistemas de consumo psicoreligiosos só acrescenta à infelicidade natural de cada um.
Onaldo Alves Pereira
A minha religião
Perguntado sobre a minha religião respondo: a Vida!
Se insistir no particular e simbólico, direi que sou animista, zoroastriano, candomblecista, judaico, hinduísta, budista, cristão, pagão, jain, caodai, xintoísta, taoísta, sikh, bahai, islamita, etc e etc. Tudo ao mesmo tempo, nessa salada mista e paradoxal.
Amo e admiro cada uma delas. Rejeito tudo o que nelas discrimina a mulher, o diferente, os gays e lésbicas e o mundo. Trabalho para que não mais derramem sangue em guerras. Espero que se suavizem e deixem de ser fonte de fanatismos.
O que nelas mais me fala à alma? A sua capacidade de provocar no ser humano a apreciação e a prática gratuita do bem. Ainda: a sua arte, poesia, templos e ritos enfeitam a Vida!
Onde a vida se manifesta aí está a Vida, Deus, Deuses e Deusas, a verdadeira religião, a que permeia todas as tradições da espiritualidade humana!
Inquirido sobre se creio em Deus, direi que sim. Se sou monoteísta? Sou. Se politeísta? Sou.
De novo, se creio em Deus? Sou ateu.
Creio nos crentes mais que nas crenças.
Sou tudo o que o ser humano é e nisso vou me descobrindo completo!
Que mixórdia sou, então?
Que loucura sou eu?!
Um ser humano que se assume por inteiro, inclusive no que desconhece de si mesmo. Que se descobre a cada passo mais que só essa pessoa com nome e endereço fixo, mas também ela, integralmente.
Sou um ponto de encontro, onde tudo se mistura, se desentende, se resolve e resulta nesse sublime mosaico que se pode chamar Vida.
A Vida de nossas vidas!
Prefiro conferir à minha experiência com o numinoso o nome de Vida. Outros nomes também servem, até a palavra Deus. Vida, contudo, catalisa todos os sentidos em algo mais aberto e generoso, como o oceano recebe os rios.
Onaldo Alves Pereira

Quão gracioso o caminho que se desdobra em mil para não deixar ninguém de fora

Verdadeira liberdade

Verdadeira liberdade
Ocorreu-me que: só é livre de fato aquele que não pode mais ser senhor. Enquanto persiste a possibilidade de tomarmos o senhorio sobre algo ou alguém nos colocamos também sob o domínio de outrem. O livre não precisa e nem consegue ser senhor. A liberdade pressupõe extinção de domínio, de outro ou nosso.
Essa liberdade começa dentro da gente, onde não temos mais que responder a quaisquer demandas, seja do medo, da necessidade ou do dever. Só ama plenamente quem é livre.

Onaldo Alves Pereira