domingo, 11 de janeiro de 2009

Aprecia o belo

Vilania pura esse arrogante apreço pelo belo singular. Não que pense ser baixo apreciar o que é bonito. A estreita concepção de beleza que obedece só as leis do mercado, segundo as quais, juventude, simetria e qualidades culturalmente definidas, de muito longe são os moldes únicos, é que é repugnante.
O filtro da beleza não pode só ser os meus olhos, nem seus indicadores só os de uma época. Não se deve reduzir beleza ao que está na vitrine do dia.
Belo o vinco profundo talhado pelo sofrimento num rosto rude. Apreciável o desencontro de linhas que arranja de forma diferente uma face. O pequeno, em sua economia de membros, é bonito e, agradável a visão do que, embora lhe falte algo comum nos outros, funciona perfeitamente bem. Como não admirar o sorriso desdentado na largura de sua espontaneidade. Um rosto índio enfeitado com criativos modos de exagero é bonito. O que foi feito sob medida, na simetria mais rígida, é belo.
Dum extremo ao outro, a beleza trafega, sempre dona de todos os olhos não obstante donde olham e procurando o que. Na diferença o olhar diverso é saciado e sai a inventar mais formas e outros jeitos de ver.
Na generosidade dos olhares a vida relaxa e sabe-se bem mais e, pronta para novas descobertas.
Quebremos de vez a lente da uniformização tacanha. Tragamos ao palco do mundo todas as cores, tamanhos, idades, enfeites e vestires e ele será alegre.
Amish, indígenas pelados, negritudes várias, dos orientes todas as caras, ciganos maneirismos, juventude transviada, clássicos trajes, da roça a simplicidade colorida e das cidades a profusão de gingados. Tanto para lá e tanto para cá, no meio tudo e o mais que vier a ser. Nesse entrelaçamento absurdo de fios, o rosto completo do mundo, seu corpo perfeito, a vastidão de sua alma!
Onaldo A. Pereira