quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Amparo

Fiquei conhecendo Amparo na zona, uma safada, completo descaramento e desapego; vivia de dar e, dando, se redimia do que não dava. Não dava porque seus humanos limites mais as constrições de espaço e tempo, impediam que atendesse toda a freguesia, carente de comungar suas carnes profundas. Não era larga, recorria à pedra ume, sabia suas mutretas e meia dúzia de simpatias. Esquecera metade da mais eficaz, um desses brancos a defraudara tão desapiedadamente, a ela tão dada, caridosa no mais íntimo do ser.
Depósito dos desejos, recebia também os líquidos, plasma do gozo, prazer materializado pela graça especial das contrações com que apalpava calorosamente o membro visitante.
Amparo era boa, seios pequenos e firmes, bunda grande, mas no lugar, inteira e sem marcas a não ser o sinal deixado pelas unhas dum amante que não entendera a espiritualidade do momento e, carnal, feriu a pele pura e inocente de quem se entregara confiante ao serviço sublime de seu prazer.
Ela é terra mediterrânea, sem mar que lhe venha fazer praia, é assim para dispensar pontes, ser aberta a estradas que lhe cheguem de todos os quadrantes.
Amparo conhece o bem como poucos seres jamais o puderam conhecer; sempre o recebeu escancarada e de tanto ser penetrada com tanto desenfreio, ficou dele senhora e lhe soube de cor a alma. Vez isso via sua manifestação chamada tesão, esse desespero da vida querendo certificar-se de que é mesmo vida.
A única dúvida que lhe adveio foi fruto dum desejo inusitado, amada de surpresa por um garotão taludo, ainda imberbe. O rapagão catara as partes com uma mão, mal despira as calças e lhe fizera pontaria com elas dizendo: É isso que vou te dar. Era claro que seu membro descomunal lhe servia de muleta, contrabalanceando outras possíveis deficiências e ele o brandia no rumo dela com a fúria de quem ameaça com um porrete eloqüente. Ato em curso, o garoto se entusiasmou e lambeu a sua virilha com uma língua macia e morna fonte de saliva. Ela, arrepiada, agarrou a sua cabeça com devoção e vibrou os quadris num ameaço de valsa. O moço sentiu o que conseguira provocar naquele corpo, que tinha por calejado e mestre no teatro de pôr no palco um prazer de araque. Esse resultado rompeu nele uma virgindade d’alma e ele conheceu a paixão, descobriu o primeiro amor. Subindo o corpo sobre o dela meteu de uma vez o membro e falou gemida confissão de convertido ao seu ouvido: eu amo você, meu amor!
Amparo, tentada pela serpente, quase convenceu-se de que também amava um só, pela vez primeira. Não tomou muito empenho dos mistérios da alquimia que habita no seu corpalma, para desse arcano arrancar o sentido maior. Sabe que acaba de ser ensinada que, lambida ali ,se torna capaz de ser amada e amar por força desse descarrego elétrico, prazer de se descobrir carne viva, puro espírito em carne pura.
Amparo seguiu a redimir a quem consiga pagar ou alcançar os seus favores; que é favor mesmo, doação, que não se vende o corpo, apenas, talvez alugam dela a cama e compram-lhe o tempo. É por hora que atende.

Onaldo Alves Pereira