quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Carne – negada e idealizada

Criamos um mundo de próteses e estereótipos. O belo que vemos retratado no nu de revista não é a pessoa que serviu de modelo, mas o conjunto de técnicas de fotografia e de maquiagem combinados, mais o acaso. Usar esse modelo de beleza criado em laboratório como a medida comparatória do que queremos em nós e nos outros é criar um demônio que há de devorar-nos a alma.
Da mesma forma, a estética da santidade cria um ideal desencarnado. O que sobra de carne nos santos é pálido, emaciado e cadavérico; algo como um sinal de que a morte é o que sintetiza a santidade. Adequar-se a esse modelo faz sofrida, mais do que o comum, a busca humana do bem.
Essas opções, a carne idealizada e a carne negada, oferecem uma prótese para um membro ainda no lugar, criando uma crise impossível, que tem desdobramentos psicológicos, sociais e culturais.
Tudo bem que se queira criar imagens estereotipadas, mas que não sejam transformadas em padrão. O mito é um brinquedo profundo, mas só isso. Trazê-lo para a expectativa real é danoso.
Onaldo Alves Pereira