quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Êita dia de Deus

Um dia desses, que poderia bem ser qualquer um. Roto de velho no modo de urdir sua trama, o dia mal espiava além da trilha comum. É pouco de si, fundido num bloco anônimo, sem risco que puxasse para fora desse atávico jeito de ser.
Aí, sem motivo alegado ou força indutora, o dia virou. Tudo ganhou cor, tom, musicalidade e sabor nunca dantes lobrigado. Até o gato velho, já encostado para morrer, levantou-se, sacudiu o pêlo e pôs-se a lamber de si a sujeira dos últimos anos.
Bebida, num gole à breque, a água estalava como cristal pisado e seu fresco aninhava na alma sensações azuis.
Alevantado, o olhar tirava do horizonte os fumos e via coisas a cobiçar, fazendo arder no peito ensaios de felicidades. Antes dona da casa, a angústia jogava na mala os trapos, que ia simbora.
Uma roseira engruvinhada, que não já morrera por não saber de que mal morrer, tantos eram seus achaques, espirrou rosas frescas e grandes para um sol que lhe fazia cócegas na seiva.
Embrulhadinho num papel marrom o pão, quente do forno, cheirava que desentendia as papilas gustativas com mais que elas estavam usadas a ter.
Na cama, a moça sentiu o macio frio da colcha de retalhos e aconchegou-se aos sonhos com amiga soltura.
Destemida, a rolinha ciscava a quirela das galinhas. O homem parando de carpir enchia a mão com a terra fofa numa descoberta do óbvio que sempre lhe escapara.
O santo Antônio, já lascado pelo tempo piscou para o menino em seus braços enquanto a moça velha reganhava, num repente, a certeza do amor.
Virando a curva da estrada esburacada, chutando cascalho e saltitante, o rapaz fazia o mesmo trecho com alegria.
Coçando o saco o homem pensava: É hoje! Olhava com tesão a mulher de tantas noites que dela achava estar enfarado.
Caindo de entre folhas verde, encerado, esborrachou na barranca um jenipapo maduro, perfumando o ambiente onde era mais dia esse dia!
Ô gente, que dia! Gritou a velha ajeitando os seios no vestido também velho.
O dia sentiu-se dia e explodiu numa noite que era estrelas no céu, pirilampos na terra e comida simples, mas boa, reconfortando o estômago de muita gente.
Êita dia de Deus!

Onaldo Alves Pereira