quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Fosse eu um certo deus

Fosse eu um certo deus
Fosse eu certo deus, “que há tanto tempo manda e desmanda sem muita contestação”, faria diferente o mito que me apresenta ao mundo. Não criaria o homem e só depois, para o seu desfrute, como coadjuvante, a mulher. Não ficaria puto da vida quando esse distinto casal, num ato de curiosidade sadia, comesse do fruto que capciosamente lhes proibira. Pelo contrário, veria nesse ato de pesquisa experimental um sinal de que havia criado bem. Não entraria nessa aventura sádica de expulsão, maldição, morte, etc. Afinal, sendo deus, esse destempero não me cairia nada bem. Não deixaria a coisa degringolar a tal ponto que tivesse que arrepender-me de haver criado a humanidade e, não conseguisse controlar-me, afogando-a num dilúvio. Principalmente, não estenderia, por tabela, a minha ira aos outros seres, matando todo mundo. Aliás, sendo todo-poderoso, amor, justiça e companhia, mudaria a cabeça desse povo e pronto. Minha nossa, principalmente me absteria de requerer e aceitar com alegria o sacrifício de animais não humanos, pelos pecados dos humanos. Tanto sangue, tanta dor... No caso da curiosidade, sempre esse maldito impulso evolutivo, de Cão, que viu e divulgou a nudez do pai bêbado, não o amaldiçoaria. Bobagem, essa coisa de cobrir corpos, de punir a sua beleza e exibir seus ossos descarnados. Cada neura!! Ainda o problema do progresso. Babel, um empreendimento filosófico-religioso-arquitetônico-urbanístico muito interessante, seria do meu agrado! Chegando às alturas descobririam que não estou precisamente no céu, mas na mente inquiridora e criativa que inventou Babel. Não ficaria nem um tico chateado (aliás, deuses não se chateiam) que quisessem ser igual a mim, encontrar-me (não é isso que desejo de todos?). Afinal, sou ou não um ser bom e, não é desejável querer igualar-se ao bom?! Nesse item é inevitável colocar a tal história de Lúcifer, outra “vítima” de uma obra “malfeita” (se não, não daria errado) e, punida por querer ser igual a deus!
Sim, jamais levaria o fetiche sadomasoquista ao ponto de sacrificar-me para salvar (de mim mesmo, de minha falta de gerenciamento e péssimo conhecimento genético) uma humanidade que fiz sem saber o que estava fazendo. No caso, esperaria um pouco, estudaria mais e só criaria quando tivesse a segurança do que fazer. Sendo deus, nem precisaria disso, e nem seria dominado por pulsões que nem Freud explica. Não chamaria um povo entre as nações para ser meu, criando um caldo explosivo de que se alimentariam racismos, conflitos religiosos e guerras sem fim. Não permitiria um livro onde, em meu nome são sancionadas leis e regras que discriminam e matam, de dentro para fora: mulheres, gentios, portadores de deficiência e de certas doenças, os de outras crenças ou descrentes, os gays e lésbicas, os escravizados (com a sanção de deus), os pobres etc.
Enfim, renunciaria à minha deidade com todo o estardalhaço possível, se continuassem a atribuir-me esses mitos monstruosos, frutos de uma imaginação desequilibrada. O pior é que a loucura sempre exerceu um fascínio (nem sempre ruim, pois pode criar histórias divertidas) irresistível. Mesmo assim, desceria do “trono” que me impuseram e desabrocharia como uma macia e perfumada flor na mente de todos os seres.
Se eu fosse esse tal deus tornar-me-ia Deus!
Onaldo Alves Pereira