quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O mundo está organizado de forma hierárquica?


O ser humano tende a hierarquizar as coisas de acordo com o grau de conhecimento que tem delas. O que conhece ou julga conhecer bem e, conseqüentemente, domina melhor, coloca no topo da hierarquia. O primeiro lá é o Deus feito à imagem e semelhança do macho guerreiro, voraz, iracundo e tresloucado, porém todo poderoso. Esse Deus é bem conhecido do ser humano porque construído caprichosamente para ser o seu mais eficaz instrumento de dominação. No limite de seu tamanho brande Deus. Em nome de Deus! Feito à imagem e semelhança desse Deus o ser humano é “o tal”.
Em nome dessa entidade grosseira foi escrita uma historia de horrores. Sangue é o elemento mais abundante nessa história, a começar pelos sacrifícios de animais, de outros humanos e prosseguindo pelas guerras santas até que o próprio Deus tem que derramar o próprio!
O segundo na hierarquia é o “homem”. Aliás, espertamente, ele se coloca em segundo para jogar sobre um suposto primeiro a culpa e o poder final, isentando-se a si mesmo da responsabilidade.
Depois vem a mulher, a prole, os empregados, os diferentes, os fracos, o outro e os “reinos inferiores”. Quanto mais distante dos fins imediatos do homem e quanto menos entendido mais “inferior”.
Num certo momento começa todo um jogo de palavras, conceitos e idéias, com o objetivo de colocar cada coisa em seu lugar. Ser vivo, matéria morta, vida no planeta terra, ausência de vida fora dele. Inteligência e raciocínio versus instinto... tudo para emparedar de fora o que ignora, para obter licença para explorar e destruir.
Diferente vira inevitavelmente sinônimo de inferior, isso até no âmbito cultural. As culturas primitivas, os selvagens etc.
Essa visão tensa tem colocado o ser humano numa situação absolutamente impossível. Ele tem que dominar, que ser a coroa da criação e isso, produz a maior angústia da alma humana e, desencadeia os piores conflitos sociais e ambientais.
O outro, o diferente é apenas isso: outro e diferente. O nosso conhecimento do outro tem o nosso tamanho, segue os caminhos de quem somos e é fruto de nossa estrutura. O conhecimento nunca poderá ser absoluto porque nem a nós mesmos conhecemos bem.
Falta-nos a combinação da visão de dentro com a visão de fora. Não conhecemos o projeto original. Não sabemos nem o mecanismo que cria a química de nosso cérebro. O conhecimento humano é essencialmente uma técnica de sobrevivência. Poderia ser também a técnica do prazer, mas a maioria não quis ainda chegar lá.
A preguiça intelectual e a arrogância, numa mistura demoníaca levam o ser humano a julgar inferior àquilo que não consegue destrinchar. Essa obra de inferiorizarão atinge o próprio ser humano. O medo da morte e a falta de compreensão do que realmente seja levou ao desprezo do corpo: “miserável homem sou, quem me livrará do corpo dessa morte?!” Lamentou Paulo, o apóstolo. Se o corpo é inferior daí, o que lhe dá origem, o sexo, é o pecado maior, o fruto proibido. Sendo matéria desprezível o corpo pode ser dominado. A pobreza é bonita porque diminui, principalmente, o regalo do corpo.
Espertamente, uma minoria transforma isso numa política de poder. O clero e os ricos explicam o porquê das coisas serem como são e, por deterem o suposto conhecimento delas, podem mandar e, sobretudo, ter o que os outros não têm.
Sempre em nome de Deus. O começo e o fim das coisas ditas na Palavra de Deus. Do Deus que precisa de um outro, contrário, para administrar a confusão do que não consegue explicar. A pior criação humana, esse Deus, nega o Deus que, houvesse uma hierarquia, estaria na base, para carregar e não deixar perder nenhum de seus seres.
Esse mito não é inevitável. Podemos, e só podemos, viver sem ele. Senão fonte de todos os desencantos humanos, esse mito é, pelo menos, a mãe dos piores. O ser humano é melhor do que isso, e o mundo não merece esse flagelo.
Livre para apenas ser e gozar, o ser humano, dentro do conjunto onde se encaixa perfeitamente sem ter que se medir com ninguém, estar acima ou abaixo, dono ou possuído, somente parte, maior, portanto, do que crê ser ao querer sair do meio, porque, de fato é o todo, seria muito mais feliz até em sua infelicidade!
Dizer não a essa hierarquia é essencial!
Onaldo Alves Pereira