segunda-feira, 9 de março de 2009

Música

Música
Depois de alguns anos cortado da convivência com a música comprei, com dinheiro periclitante, um aparelho portátil de som, rádio e toca-fitas que escondi em meu pequeno quarto na casa da tia Tereza. Fiz essa aquisição em São Paulo, ano de 1982, de onde trouxe também algumas fitas cassetes, música mexicana, valsas brasileiras mais Manolo Otero e Nicola de Angelis.
Antes disso, nos anos de 1970, o Gilberto Guimarães, amigo daqueles tempos, esnobava o seu gravador e toca-fitas Dako tijolão e a sua vitrola portátil. O Cláudio Gonçalves, também dos amigos de então, e eu, tínhamos o privilégio de ouvir as Quatro Estações de Vivaldi na Vitrola do Gilberto, todos sentados confortavelmente em seu quarto. Nas datas especiais, aniversário de alguém da igreja do Gilberto, a Presbiteriana, ou de alguma afim – Batista, Cristã Evangélica etc. e, principalmente no Natal, acompanhávamos o Gilberto nas serenatas que fazia, usando seu gravador.
O prazer da música era imenso!
Naquela época os equipamentos do Gilberto eram, para nós, o máximo de tecnologia.
Em casa de meus pais não tínhamos nem eletricidade. A conexão com o mundo era feita via o rádio à pilha de meu pai; eventualmente reanimado à tapa.
Entre esses dois períodos, o de minha primeira aquisição musical e dependência do rádio e o da generosidade do Gilberto, tive uns anos de convívio com um tipo peculiar de cultura musical, a dos menonitas da colônia de norte-americanos de Rio Verde.
Lá e também em nossas vidas externas, estava proibida a música “secular”, a instrumental de qualquer espécie e a gravada de um modo geral. Isso, contudo, não significava exclusão da música por completo. Esses menonitas cultivam o cântico à cappella como uma obrigação religiosa e, o resultado é espetacular. Em casa, na igreja, na escola e, eventualmente, em outros espaços, o canto coral era, talvez, o único lazer coletivo dos menonitas.
Reuniões especiais para cantar em lares e, uma vez por mês, na igreja, eram realizadas. As vozes, cultivadas como cultivavam a terra, produziam, igualmente, resultados magníficos.
Claro, em concordância com os princípios menonitas, o solo era proibido não obstante o fato de que, mesmo no canto coral, algumas vozes se destacavam singularmente.
Dos livros de qualquer lar menonita tradicional, os hinários facilmente faziam a maioria.
Quartetos e até duetos eram permitidos em ocasiões especiais. A congregação inteira aprendia a ler notas musicais em aulas especiais. As notas nos hinários escritos pelos menonitas são diferentes do comum, de forma a facilitar a sua leitura.
Assim aprendi a apreciar a boa música e a valorizar as oportunidades quando ela se faz disponível.
Onaldo Alves Pereira