quinta-feira, 19 de março de 2009

Fio

Dum fio a outro pendiam panos. Velharias de cores lavadas, rasgos grandes, remendos de tecidos os mais variados. No meio de tudo, uma camisa da mais alva brancura. Salta aos olhos o novo dela, a qualidade do material e do feitio. É, sem dúvida, de primeira.
A mulher, sentada, olhava o arranjo e desfiava uma palha de milho. Fazia uma bucha de palha.
A lida do dia-a-dia era do pouco muito fazer. Pouco na quantidade, muito na ocupação. Do cedo amanhecer até quando o corpo agüentava, estava ocupada a mulher. Cuidava muito dos outros e pouco de si. Tomava conta da casa, de quem passava por ali e das vizinhas em grandes tribulações.
Entravam anos que não saíam, ficavam no seu corpo e devoravam as suas carnes por dentro. Sentia os efeitos desse entupimento mesquinho, pesavam-lhe os membros, esquecia fácil o encadear das tarefas, tinha pontadas nos pés e nas juntas das mãos. Era ainda nova na contagem das eras, mas envelhecia no arremate das pelejas, nos sentimentos arrevesados que atavam nós impossíveis em seu peito.
Fazia, ouvia, agüentava, era a primeira a ter mão nas coisas e a última a retirar o que sobrava de tudo, fosse de festa ou de velório.
Os trapos na linha eram seus e representavam muito bem a sua história, o pouco que dela fora sobrando. Dependurados sem muita ordem, haviam perdido a memória, mas não a linha que os segurava de um nada a outro nada.
Aquela camisa era do defunto que lavara por último. Fazia isso também, de favor. Era parteira, benzedeira e enterradeira.
Onaldo Alves Pereira