domingo, 30 de novembro de 2008

Ter por inteiro


O consumismo explora a superficialidade humana, a incapacidade de parar, degustar, retirar o máximo de cada bocado. Compramos um bolo duma vitrine cheia de quitutes, entre todos, o mais vistoso; damos uma mordida e já queremos outro. Esse desejo rouba-nos grande parte do prazer atual e real do que estamos recebendo; o desprezamos antes de chegar ao seu recheio. Isso é assim em todas as esferas da vida, minguando nosso prazer, desencadeando ansiedade, gerando conflitos internos e externos. Querendo ter mais sem termos aproveitado ao máximo o que temos e saindo em busca disso, de fato perdemos tudo. Pois, na fatia de uma maçã temos ela toda, se na fatia somos capazes de receber a totalidade de seu sabor, perfume e textura, sem a ânsia pelo próximo pedaço, que pode vir calmamente.
Seguindo esse pensamento, onde me cabe é o meu reino, não necessito mais do que isso, se mais me vem é privilégio gratuito.
Transformar cada passo em um passo para novas oportunidades, cada vista como a mais interessante no momento, cada pessoa como um convite de amizade ou convívio respeitoso (a indiferença também vale!), cada refeição como um presente, cada trabalho como arte (nem só o agradável é arte), eis aí o segredo simples da maior felicidade (felicidade que inclui o sofrimento). Isso, contudo, não deve ser um arremedo, ou fazer de conta, ou um estar cego aos limites, fraquezas e defeitos de cada situação. Ver algo ou alguém como o melhor, significa compreender, inclusive, os seus defeitos. Buscar a perfeição ideal é cair no mesmo círculo escravizante e destrutivo de se querer sempre o que não se tem no momento!
Onaldo Alves Pereira