quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O homem da Chiquita

O homem da Chiquita

Denso como uma barra de ferro, ele sabia pouco de si mesmo e menos ainda do mundo. A densidade também o fazia impermeável a sentimentos. Vivia por viver e topava pirraçar a existência como pudesse. Na maior força do tempo, quando acordado, comia, palitava os dentes, fumava e biritava.

Morava com uma enrabichada de alguns anos, dela sugava o que podia e a ela dava sexo de má qualidade. Alto, nos truques que as substâncias fazem nos miolos, ele enfiava a mão entre as pernas dela, tirava o pau pra fora pra ser chupado, quando dava subia nela, ainda meio vestidos ambos e gozava fedida gosma que ela sofria com asco.

Desaparecia por dias e voltava sempre bem vestido, relógio novo, jóias e algum dinheiro. Resmungava, um pouco mais satisfeito, que queria muita carne. Ela cozinhava costela de vaca com muito sal e muita pimenta, fazia do caldo pirão moreno e forte, que ele comia ininterruptamente até acabar.

Ela costurava pra fora. As freguesas comentavam sobre o homem da Chiquita e espichavam os olhos para dentro da casa querendo dele ver uma cena. Todas tinham uma passagem para contar. Entre mito e fato, o assunto rendia. Olhando figurinos nas velhas revistas de moda, elas passavam na sala de costura da Chiquita mais que a precisão.

Chiquita importava pouco ou nada com a situação. De como ele viera para sua vida, tinha história. Muita coisa carregava cada capítulo da novela que fora a sua vida e, em especial, o que dava entrada a esse personagem. Pouca gente sabia disso e ninguém dessa cidade, onde estava fazia tempo. Viera com o caso resolvido e encrencado.

Rapadura é doce, mas não é mole, dizia a uma ou outra freguesa, que não tinha amigos. Essa frase, único desabafo que se permitia fazer, era ricamente interpretada pelas exegetas da vida alheia.

Ele gostava de estilingues e os fazia com perfeição e arte. Trabalhava as forquilhas com figurinhas feitas a canivete e com arame em brasa. As borrachas e o courinho onde ia a pedra eram milimetricamente medidos e aparados. A gurizada da cidade disputava a tapas um estilingue feito por ele. um rapazola, beirando os dezoito, tinha acesso ao precioso material. Ele vinha em data marcada, pegava a caixa de sapato cheia de estilingues e os vendia aos garotos. Às vezes, ele parava a sua produção por uns tempos e os estilingues ficavam com preço inflacionado, com os mais espertos tirando proveito disso.

Começo de novembro, depois de Finados, a tarde veio coberta de nuvens escuras. Fez-se noite antes da hora e caiu o maior toró. Foi água como não se vira antes nas redondezas. Raios e trovões arrematavam o aguaceiro. Aterrorizada, a população correu cada um à sua devoção. A luz foi embora. O ronco da enxurrada misturado ao assobio do vento arrepiava até as almas mais duras.

Ao abrir a porta da cozinha para deixar entrar o gato que miava, uma das freguesas de Chiquita viu pendurado no galho baixo do limoeiro o pano que deixara com ela para ser costurado num vestido. Assustada com a visão sinistra ela entrou na chuva para apanhar o tecido e nisso, viu, à luz de um relâmpago, desses que fendem o céu inteiro, que vestidos, panos, linhas, fitas métricas e outros apetrechos de trabalho da Chiquita, muito deles conhecidos, enfeitavam os telhados das casas, os galhos das árvores, os postes de luz e até o cruzeiro da igreja. Tremendo, ela voltou pra dentro e contou para a mãe a visão. Ela abriu a janela para nela descobrir um pedaço de fita russa e, no que restava de um monte de tijolos, o brilho de um punhado de botões dourados.

Não agüentando a ansiedade do mistério e a previsão de uma tragédia, a freguesa saiu na chuva com a mãe, foi até a vizinha do lado para comentar o estranho acontecimento.

Aos poucos toda a vizinhança vira que uma fenomenal quantia de roupas, tecidos e material de costura estava espalhada por quase toda a cidade. Muitas, quase todas as mulheres, reconheciam algo de seu no emaranhado. Estranhavam que Chiquita tivesse tanto delas consigo, que coubesse naquela salinha modesta o que agora parecia não caber num galpão. Começaram, então, a pensar no porquê de terem levado tanta costura para Chiquita, que nem numa vida dariam conta de usar tanta roupa. Esse era o assunto, quando alguém abriu a torneira e gritou que dela saíam botões, agulhas e miçangas, ao que todos, cada um voltando pra casa, verificou que também era assim.

Amainara a chuva, restando apenas um sereno macio, iluminado por imensa lua cheia que empurrara de seu carão algumas nuvens, interessada que estava em assistir tão inusitado evento.

A luz fria, riscada por chuvisco fininho tornava aquele quadro ainda mais assustador. A estamparia dos panos e o comprido das linhas esticadas de uma árvore a outra, mudavam de tom e tremulavam como se tivessem vida própria.

No apuro da coisa nem lhes acudiu à alma o destino de Chiquita, seu homem e sua casa. quando era dia e ninguém atinara ainda trocar as roupas de dormir e nem coar café, um menino perguntou ao seu grupo cadê Chiquita. Se todo o seu trabalho estava espalhado pela cidade, então, o que não poderia ter acontecido à sua casa?

A casa estava intacta, rebrilhando com a umidade. Todas as portas fechadas, a janela da sala de costura aberta. Dentro da casa tudo nos seus devidos lugares, a sala de costura estava nua, sem móvel ou apetrecho. No quarto, sinais de que as malas haviam sido feitas. Haviam, decerto, partido.

Vagando que nem fantasmas pelas ruas, olhando tudo enfeitado com suas roupas, panos e aviamentos, entraram na igreja e deram com a máquina de costura de Chiquita cravada como uma jóia no altar mor e no confessionário, mil cento e um estilingues, os mais belos que jamais haviam visto.

Nunca tiveram notícias de Chiquita e de seu homem.

Onaldo Alves Pereira