quarta-feira, 15 de abril de 2009

A lavagem da santa

- Não há de ver que ela teve a tamanha capacidade de lavar a santa na data errada! Uma barbaridade. Quem faz um absurdo desses, arrenega a Cristo e faz maligna a própria alma. Curuiscredo, Ave Maria, que desespero de causa, cair numa danação dessas.
O velho tingia o pano no tacho e soltava o verbo, a cada início de frase metia com mais força a vara no tecido e, segurando o cotovelo direito com a mão esquerda, dava uma revirada nele.
- Maria, me diga, que diacho tava no seu coro, mulher, pra fazer uma danura dessas?
- Ora Zico, que a santa tava suja de poeira, mal dava pra ver seu vulto, tadinha dela.
- Mais só no dia certo, se não, desanda tudo, como tá acontecendo; o sabão não deu ponto, os ovo da galinha amarela chocou, ocê tá perrengue e, eu, aperriado da gota.
- Ora sô, que vai vê foi mais a sujeira da santa que provocou tudo isso, ocê faiz umas promessa atravessada de só lavá ela de ano em ano, vai ela castiga, que nem santo tolera imundíça.
- Num me irrita sua herege, gemeu o velho levantando o pau e metendo-o com toda a força no tacho. As pedras que faziam a fornalha arredaram, o tacho esborrachou-se no fogo e foi água tingida, brasa, cinza e pano pra todo lado.
Os dois receberam, cada um, os machucados cabidos no caso e, a culpa de todas as desgraças ficou com a velha, que queria limpa a santa.
Desde essa data construiu-se uma capela para a santa e, todo ano, na data certa, a vizinhança de perto e de longe, fazia novena e lavava a imagem milagrosa, que havia castigado o casal desobediente com queimaduras, ossos partidos e muita dor.
É assim que Deus exempla as suas criaturas, para que não se desviem da devoção correta, todos agora sabem!
Onaldo Alves Pereira