sábado, 2 de maio de 2009

Prosa Caipira

Ele pegava um punhado de arroz com casca entre as duas mãos e, num movimento de vai-e-vem, primeiro pressionando, depois aliviando e, de quando em quando, soprando a casca que se soltara, avaliava a qualidade do arroz. Meia dúzia de grãos quebrados, alguns grãos transformados em quirela.
– É bom o arroz, sentenciava no fim da operação.
Tinha as mãos calejadas, ásperas, tanto que rangiam ao limpar o arroz.
Arrancava uma casquinha mais seca do rolo de fumo, cheirava e punha a secar na chapa do fogão à lenha.
Entrementes, a prosa. Tudo num ritmo de dança encantada, lenta e suave, com cada movimento fazendo sentido.
Transformava em pó o fumo e o aspirava a pitadas, rápida e ruidosamente. Oferecia aos outros, o pó. Espirro e risadas abafadas pelo pudor natural. Continuava a prosa até ser vencida pelo sono.
Onaldo Alves Pereira