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Só podemos conceber, à luz da justiça e da compaixão de Deus, este único momento de desorganização e de sofrimento, nesta manifestação da vida. Imaginar outras voltas a este estado é dizer que Deus escorregou em sua perfeição e não conseguiu criar bem. Ou, que Deus não pode fazer melhor do que isto. Ainda, que esta é a vontade de Deus, que sejamos submetidos a uma infinidade de experiências sofridas para que se complete a nossa feitura. Que o aluno repita a mesma lição à náusea!
Neste caso, ou Deus é sádico e tem prazer em nossa dor, ou é um professor fraco, que não consegue ensinar a sua lição de uma vez só. Atribuir uma infinidade de reencarnações aos mistérios do desígnio de Deus para nos fazer evoluir é uma fuga, diante do horror desta possibilidade. De qualquer forma, este método, a reencarnação, seria pior que um inferno eterno, pois retarda de forma inexplicavelmente cruel, a aplicação de um ensino, de um progresso.
Deus é amor, se não o for não é Deus, mas um demiurgo infeliz. Se havemos de experimentar o sofrimento, de sermos limitados a uma hora de confusão e de dúvida para conhecê-lo, basta um momento, uma das manifestações da vida.
Pagar dívidas? Carma? Se Deus nos cria e permite ser quem somos, o faz com uma boa razão e a responsabilidade total é de Deus, não temos culpa alguma! Não temos que sofrer em reencarnações ou ir para um inferno eterno.
Compreendendo isto, como não responder com apreciação e amor ao Amor que nos cria para sermos amados?!
Onaldo Alves Pereira
Pudesse eu pedir um milagre,Queria compaixão sobre compaixão,
Sobrando em cada alma.
Seria este milagre, a mãe dos milagres,
Pois, o que há que a compaixão não cure,
Não conserte, resolva e embeleze?
O mundo seria ainda mundo,
Mas o que agora, apenas faz sofrer,
Com compaixão, uniria e acudiria;
Em tão belos encontros,
Que aqui seria o céu,
Mesmo, ainda, com alguma dor.
Sem reparos, nem defeitos,
A compaixão geraria todos os bens
E, Deus sorriria generosamente
Em cada encontro
Dos seres que vivem
O milagre da compaixão.
Onaldo Alves Pereira
Uma das coisas mais assustadoras no ser humano é a sua capacidade de imaginar que possa salvar-se de uma danação eterna, na qual pereceria a maioria absoluta de seus semelhantes, familiares e amigos. Aterrorizante é que possa, ainda, alegrar-se nesta sua suposta salvação.
Para mim, essa imaginação é o único pecado humano, aliás, a sua doença mais avassaladora.
O normal seria que, ao imaginar tal descalabro, a pessoa optasse por estar onde a maioria estivesse. Fosse isto impossível, o único remédio seria enlouquecer.
O ser humano com um mínimo de sensibilidade não sobreviveria a uma possibilidade tão absurda, ilógica e odiosa!
Crer em um Deus capaz de permitir um inferno é inventar o diabo do diabo, o pior mal.
Só posso concluir que ninguém de fato crê nessa perdição; como não crê no lobo mau nem em vampiros etc. Apenas sofre uma alucinação desvairada, uma viagem egocêntrica do tipo: “eu vou para o céu, você não vai”; da qual há de acordar logo.
Onaldo Alves Pereira
O filho traz para o pai ver a sua primeira escrita. Anseia por aprovação. O pai pega a folha de papel e a encara com olhos vazios, embora ansiosos. Diz, então: Filho está mal a sua letra e cometeu vários erros. Tem que se esforçar mais, caprichar! O menino murcha interiormente e fica todo caído. Puxa as primeiras letras, escritas de modo especial para mostrar ao pai e agora, esse fracasso! Alguns anos depois, descobre que o pai é analfabeto! A segunda queda é pior que a primeira.
Confrontada, a mãe que sabia de tudo, argumentou que o pai precisava de afirmar-se como pai. Não podia revelar-se “menos” que o filho. Tinha que puxar para baixo para empurrar para frente! Nisso, tanto se afirmava como “estimulava” o filho!
Essa é a cara da religião patriarcal!
Onaldo Alves Pereira
Deus é travesti
traz em si os contrários
veste o brilho da noite
esconde-se na luz do dia
Nos saltos altos
rebola gostoso
despeja purpurina
por onde passa
Não vês as estrelas?!
Muda de peruca
pra outro show
do verde das matas
retira as cores do outono
e, depois, de branco todo
descansa adormecido
embriagado
esperando
até que as esquinas
ganhem vida
e Deus traveca, feche e abale.
Onaldo A Pereira
Ter que dar sentido à vida é lenha para a chama da angústia.
A vida não tem sentido. Sentido é qualidade de coisa fechada, acabada e, portanto, morta.
A vida nasce de si mesma a cada momento, espalha-se, devora horizontes, surpreende, ignora leis e continua fazendo-se vida.
Não cabe, portanto, indagar o sentido da vida. Antes, abraçá-la com paixão, sobretudo, entregar-se aos braços dela. Fazer o seu sentido!Onaldo A Pereira
Tragédias, como a do terremoto no Haiti no começo deste ano de 2010, são inexplicáveis, mas ao mesmo tempo, mostram que existe no Universo um seguro que tudo cobre e compensa. Somente Deus, que tudo segura no colo, mesmo os cacos de sua criação, sem a possibilidade de perdas definitivas, pode conferir sentido à vida, diante desse caos momentâneo. O bom artista pode dar-se ao luxo de deixar uma obra sua ser borrada, pois é capaz não só de refazê-la, mas até de, continuamente, melhorá-la sem prejuízo para quem quer que seja. Nesse processo, o artista sabe o que não sabemos e age melhor do que possamos julgar. Quem diria que os golpes brutos numa peça de mármore, suavizados aos poucos, dariam origem a um Davi de Miguelangelo, não conhecesse o artista e a sua arte?
Assim, Deus no mundo!
Não, o terremoto não é sinal apocalíptico: “o bramido das ondas”, pois não é novidade e nem a pior das tragédias que já aconteceram no Planeta. Não deve, portanto, servir de vitamina para os fanatismos religiosos e nem instrumento de proselitismo, um bicho-papão moderno. Ouvi na televisão um pastor dizendo que o terremoto é uma punição pela prática generalizada do Vodu naquele país. Um absurdo idiota!
A dor e a perplexidade são respostas legítimas. A curiosidade científica também é uma reação interessante.
Ao contrário, pois, de dobrar os joelhos numa atitude primitiva de pasmo, que nos levantemos em ação solidária. Ação que não se resuma às respostas em momentos de desastre, mas que seja preventiva, consistente, organizativa e inclua o nosso estilo de vida, para ser menos consumista, mais respeitoso com as diferenças e, que leve em consideração o espaço dos outros seres, sem que nos vejamos como superiores.
Desastre maior que os terremotos naturais é uma atitude humana arrogante, especista, religiosamente exclusivista (como o uso da tragédia no Haiti como oportunidade missionária, como já planejam várias igrejas, conforme vi nos seus programas de tv), ecológica e politicamente predatória, e uma consciência não maior que o próprio umbigo. Essa atitude tem sido historicamente causadora de massacres perfeitamente evitáveis, pois causados pelas ideologias e religiões humanas: o genocídio dos povos indígenas, as cruzadas, as inquisições católicas e protestantes (que até certo ponto continuam contra os gays e lésbicas, as mulheres, os afro-descendentes e os que professam crenças diferentes das da maioria, entre outros), os sistemas ideológicos absolutistas etc.
Reflitamos sobre a bondade do/da Artista que tem em Sua mente perfeita a imagem do que irá fazer do Planeta, não obstante os aparentes atropelos. Façamos a nossa parte, acordando para a boa e transformadora consciência do que nos toca para o amor incondicional.
Nisso Deus sorri generosamente.
Onaldo Alves Pereira
Antes mal acompanhado do que só. Um guia cego é melhor do que nenhum. Caindo os dois no buraco pelo menos podem ter a companhia um do outro. Se só um cair, a solidão será dolorosa. Os dois unindo vozes gritarão mais forte por socorro, duas cabeças pensarão melhor e o que falta nos olhos acabarão por desenvolver no tato, na intuição e na amizade que os unirá. Mesmo aí, comunidade é melhor do que solidão.
Onaldo Alves Pereira
Observa o vôo rasante de uma ave sobre as águas,
como rabisca a superfície lisa com suas asas,
e como delas caem gotas, como diamantes carregando sóis
vê no pouco que percebe de tudo isso
o toque de Deus n’alma
e da alma em Deus!
Onaldo Alves Pereira
Ao contrário do que acontece, o serviço de repressão aos desatinos de alguns deveria ser objeto de vergonha e dor. Algo semelhante ao pudor e recato usual a quando vamos ao banheiro defecar seria natural também nesse caso. Enquanto defecar é comum e bom sinal do funcionamento do organismo, a repressão policial, por exemplo, denuncia o fracasso de nossas instituições na formação e proteção da pessoa.
Qualquer ato repressivo é o último e desesperado recurso de uma sociedade que não deu conta de si mesma, de doutrinas que fracassaram e de uma humanidade que não evoluiu ainda o suficiente. O policial, ao prender alguém, deveria pedir a essa pessoa perdão pelo que faz. O juiz que condena, deveria também punir a sua própria instituição. Esse serviço, pelo bem do mundo, deve ter como objetivo maior o seu próprio fim. Ele deveria ser, talvez, a única coisa considerada “pornográfica” na sociedade.
Por isso mesmo, por ser tão desnatural e vergonhoso, esse serviço só deveria ser prestado por profissionais altamente qualificados e com equilíbrio emocional e muita paixão pelo mundo.
Onaldo Alves Pereira
Para a teologia predominante, Deus é mais uma ameaça que uma segurança.
Esse “Deus” nos segura com mãos ensaboadas, delas escorregamos, se nos mexemos.
Deus “ama” odiando; ama o pecador, mas odeia o pecado, por isso, nunca está totalmente unido à sua criação.
Deus cria para perder, pois, sabendo da suposta “queda” de sua criação (no caso, o ser humano – (antropocentrismo) ainda assim, prossegue como se tomado por uma obsessão sadomasoquista.
Esse Deus é o fracasso embutido em tudo o que toca, é o destino fatídico de sua criação, é, conseqüentemente, o próprio mal.
O Deus verdadeiro é absoluto em sua bondade.
Deus segura tudo o que cria como a si mesmo, em si mesmo. Perder algo equivaleria a perder-se o que é, de fato, uma impossibilidade.
Deus permite contradições e paradoxos em sua ação cósmica, ao conceder espaço para a liberdade dos seres, um exercício de estabelecimento de relação com o que cria.
Isso pode até, num determinado momento, dar uma aparência de afastamento e, mesmo, de abandono por parte de Deus, o que, de fato, é apenas uma ilusão, pois, se a corrente cai numa cascata Deus vai junto; se a poeira se eleva e se dispersa no ar, nela, no ar e no chão Deus está; se a consciência se perde num emaranhado de dúvidas, na dúvida e na consciência está Deus. Deus no gozo, na dor, na causa e na conseqüência, na inconseqüência também. Deus no perpetrador e na vítima, na fome e na saciedade e, ainda, na indiferença. Deus na sociedade que brota e na que apodrece, no pensamento que prepara como no que aborta. Deus sempre indefinível, por ser interior. Como é difícil ver-se a si mesmo assim também o é ver a Deus. Aquilo que está dentro do olho, que é o pensamento e não apenas o seu conteúdo, que também se desdobra na visão e no pensamento, Deus. Deus é Deus por isso mesmo é Deus e é...
Absoluto em sua bondade, senão não seria! Isso sabemos com certeza.
Deus é o mapa que, interior às águas, guia-as rumo ao Oceano não obstante os caminhos que toma.
Deus é o tesão que leva ao encontro, que fertiliza a vida, que diz a ela para individualizar-se.
Deus é o absurdo da completa segurança e o sentido de tudo.
Onaldo Alves Pereira
Vê-se por aí anúncios do tipo: “Quer libertar-se das drogas, e das doenças etc procure-nos!” “Está desempregado, com problemas familiares, deprimido? Nós temos a solução!” Aí oferecem o telefone, o endereço, programas de rádio e TV etc.
Mas não se vê:
“Você está desempregado, com fome, desabrigado?! Nós temos a solução, oferecemos emprego, casa e comida. Procure-nos.”
As igrejas oferecem o abstrato o que, ao contrário de lhes custar algo, rende-lhes fortunas. É mais fácil e cômodo. Se Deus proverá, seus seguidores estão eximidos de fazê-lo!
Essa é uma anti-religião, a que oferece um produto no qual não vai junto, inteira, uma propaganda enganosa, negação da vida.
Onaldo Alves Pereira
Sou da fonte o motivo, ela jorra para mim
Sabe, a fonte, minhas entradas
E, delas, o mapa traz em si
Da vida, caudal imenso
Solta de si a fonte
Em sabores, cores, odores
Na visão interior ao ser
Profusão de muito mais
Que tem para dar de si, a fonte
Ela só é fonte por mim
Seca se não sou dela todo
Finda vazia, embora cheia
Se não quero dela sempre mais.
Onaldo Alves Pereira
Prega-se o grupo como obrigação social. Não pertencer a um grupo, igreja, partido, clube, galera etc. significa alienação. Essa ditadura do grupo, primeiro falsifica esses ajuntamentos, tirando deles o cimento da genuína convicção. Depois, banaliza o indivíduo ao desconfiar de suas escolhas não grupais. Isso vai ao ponto de alguém tornar-se suspeito de algo ruim só por não ser de algum grupo. Ele não se mistura! Ela é esquisita, sempre só, dizem, como prova sinistra de algum desvio.
O grupo, quando voluntário, convencido e aberto para entradas e saídas, sem maiores traumas, é bom e alavanca o bem da sociedade.
O indivíduo que não se filia também é normal e bom, sendo a seu modo, um elemento de equilíbrio e manutenção do direito à individualidade, sem coação ou proselitismo.
Claro que, o proselitismo, quando dialogante e, sobretudo, inteligente e bem informado, também é bom.
O ideal é que a decisão de estar ou não dentro de um grupo seja absolutamente livre e, nunca, definidora da qualidade da pessoa.
Onaldo Alves Pereira
Dos lábios de Deus
Pendem frutas maduras
Dos lábios de Deus
Mina mel, que doçura
O convite é feito
De gentil sedução
Frutas maduras
E mel coração
A beijar esses lábios
A vida se adoça
Nos lábios de Deus
Refinado sabor
Quem sabe, bem sabe
Deus se faz em sabor
Pra ganhar nosso amor.
Onaldo Alves Pereira
Um ser humano traz em si a dignidade de toda a humanidade. Num indivíduo está a plenitude de seu meio.
As constituições dos países democráticos reconhecem o fato de que toda a autoridade emana do povo e por ele será exercida, portanto, a maior autoridade é o indivíduo que, somado a outros indivíduos, faz o povo. Um povo só é construído quando realiza na diversidade a sua unidade. Como o conceito de povo se assenta no alicerce do indivíduo, esse é o povo de fato e, uma sociedade nunca se definirá por sua maioria numérica (de votantes, opinião, religião, moral etc), mas pela pessoa singular que tem valor absoluto e, é o resultado de todas as somas.
Daí, não é da função investida numa pessoa ou num serviço específico, que vem a autoridade ou o poder maior. A maior autoridade é sempre o indivíduo comum, despido de títulos, de cargos ou de funções, este é o chefe absoluto, o poder em pessoa.
É profundamente equivocada a idéia desumanizante de que o funcionário público, seja ele o presidente da República, seja o policial da esquina, é a autoridade maior. Esses exercem, sim, um trabalho comissionado pelo povo, seu chefe, para servir-lhe. A autoridade, nesse caso, é funcional e está no exercício do serviço, e não na pessoa ou no título que ostenta seu cargo. Desempenhando bem a função que recebeu, merece o respeito dos que lhe mandaram fazer isso e lhe estão pagando para tal. Seja ele o juiz de direito ou o varredor de rua, ambos têm autoridade na mesma medida, sendo o que desempenhar melhor a sua tarefa mais digno de sua paga e de louvor. Mesmo esses, são chefes de si mesmos, pois, como pessoas, são maiores que as funções que exercem.
Quando entendermos bem isso e o colocarmos em prática os maiores problemas do mundo serão resolvidos e acabarão as guerras – que são, na verdade, brigas de “autoridades”.
Onaldo Alves Pereira
É bom criar novas sensibilidades.
Saber ver o doutra forma imperceptível.
Dar palco ao artista, parar para ver a cena de rua.
Ouvir histórias puxando detalhes.
Saborear o prato da hora, querendo conhecer seus ingredientes e quem os preparou, desde o chão.
A cada passo, levar espertos e alertas todos os sentidos.
Isso possibilita viver de forma mais inteira e gostosa, a nossa e, a vida dos outros.
Onaldo Alves Pereira
A beleza está nos olhos de quem vê. Mais do que isso, está na sua alma, que, por sua vez, produz os pensamentos, as palavras e as ações que podem criar Beleza.
Beleza é sinônimo de bem estar. Ela vai além da superfície sujeita ao trabalho do tempo, ela se eterniza nos feitos que superam as circunstâncias e nunca é propriedade de um ser só.
A beleza das flores que duram apenas dois dias, mas que não morrem, pois sobrevivem no néctar que fornecem às abelhas e nos frutos que alimentam os humanos, os pássaros e os vermes. A beleza continua depois que a aparência muda. Ela, de fato, se multiplica ao se tornar alimento. Essa oferta de si é o segredo da beleza eterna. A vida aponta-nos esse segredo em nós mesmos e nos convida à abertura irrestrita e à alegre doação!
Onaldo Alves Pereira
Escrevi, no calor da reação aos exageros que vi ao meu redor (até um rapaz espancado por dizer que não curtia o pop star), um texto sobre a morte do Michael Jacson que me rendeu um punhado de respostas, também nervosas. Arrependi-me amargamente de ter expressado tão abruptamente a minha opinião. Entre as respostas, uma pessoa querida dizendo que não fala mais comigo e uma meia-ameaça de punição exemplar.
Eu sempre tive dificuldades com tudo o que eleva demais, as glórias que tiram os pés do chão e, sobretudo, a manipulação midiática do assunto. Enquanto outros assuntos tão ou mais apaixonantes e urgentes como a eliminação (Onaldo, cuidado com o exagero. Resolução, talvez seja melhor que eliminação) da miséria, da violência e da ignorância não recebem nem uma resposta mediana das pessoas. Tenho a impressão de que o entusiasmo é insuflado pela mídia seletivamente, enquanto ela nos dá a impressão de que “apenas” noticia.
Mas está bem, tem muita gente que gosta do Michel Jackson, especialmente morto, é claro, porque quando ele estava caindo de moda, recluso e sofrendo um de seus muitos sofrimentos, a venda de seus discos caiu vertiginosamente e não houve uma corrente mundial de “pra cima Michel”. A mesma multidão que adora é antropófaga e vampira, quando o ídolo dá errado o espetáculo da queda é saboreado com imenso prazer. Vemos isso no futebol, na música e no cinema. A morte às vezes redime e reverte a onda, mas nem sempre, não são poucos os astros que morreram no anonimato, esquecidos e pobres. Só um para exemplo: o Garrincha. Depois, surgindo um biógrafo e um bom editor, a coisa muda, de novo o prato da desgraça é servido quente e bem temperado e, não faltam os com bom apetite.
Bem, eu na verdade, sinto um grande espanto diante de tudo isso. Mais um aspecto complexo e misterioso de nossa sublime humanidade.
Não tenho a pretensão de entender o que se dá e nem opinião formada a respeito, apesar do que escrevo. Para quem não sabe, muito do que escrevo é plástico, indagador e, às vezes um transbordar do que me inunda o espírito na hora.
Que o Michel Jackson seja adorado e entronizado! O que ele produziu é considerado genial por muita gente e isso basta!
Quem não se entusiasma na mesma linha, fica espiando e escrevendo linhas desatinadas. Diz a amiga que não quer mais prosa comigo e a quem continuo chamando de amiga, que eu sou é um baita de um invejoso. Bem pode ser. Afinal, tudo pode ser.
Queria era ver esse fogo poderoso mexendo com os brios de todos diante das mazelas que os nossos políticos, a nossa custa, mal administram e até pioram. Não, não sou um revolucionário, longe de mim, mas acho que temos instrumentos racionais para lidarmos com essas coisas, basta que nos despertemos tanto para a feiúra do que predomina, como para a beleza do que poderia ser!
E viva o Michael Jacson!
Onaldo Alves Pereira
Michael Jackson morreu e virou assunto obrigatório, saturando os meio de comunicação e a conversa geral.
Eu não consigo entender o alvoroço. Pelo que eu saiba, o cantor pop era humano e, conseqüentemente, mortal. A sua música faz sucesso e é do gosto das massas, o que é sintoma de qualidade duvidosa. Para alguns, eu incluso, essa música não passa de uma desagradável poluição sonora e visual.
A comoção é meio forçação de barra. A maioria dos entrevistados, nos programas de TV a que assisti, ao se dizerem “arrasados” com a morte do cantor, soou teatralmente improvisada, falsa. E não podia ser diferente, faltam razões para que sejam sinceros.
Isso é daquelas coisas que se criam artificialmente para que vendam bem e, a maioria entra na onda porque seria politicamente incorreto diferir. Duvido que a mídia publique opiniões como a minha!
Morreu uma pessoa como morrem milhares. Os de perto, amigos e parentes, genuinamente sofrem. O resto lamenta a morte da figura mitológica, à moda dos rebanhos, sem saber o que faz. É mais impressionante a encenação coletiva – o que não é encenado é pior ainda – do que a morte de um cantor famoso, não obstante os obstantes.
Onaldo Alves Pereira