quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O apego é bom


Há que se apegar às coisas que têm valor e também às que não têm, para que passem a ter. As religiões têm ensinado o desapego e a doação a partir disso. Ora, só realmente doamos aquilo que tem valor para nós, aquilo a que não nos apegamos é resto, não vale à pena doar. Quanto mais de nós for numa doação maior o dom. Aquilo a que mais nos apegamos mais qualidade ganha. Portanto, o apego é amor.
Onaldo Alves Pereira

A verdade humana


Está nos extremos a verdade humana? Ou no meio termo das coisas? Ou no fim, no acabado de tudo?
Donde o ser humano mais completo, no que definha e já tem os sentidos embotados e o corpo definhando, restando-lhe apenas o que de fato é? Ou no que nos seus vinte anos desabrocha pleno de beleza, força, fertilidade, sonhos e possibilidades? Onde encontrar o verdadeiro ser humano?
Acho que a medida, qualquer delas, é incapaz e insuficiente, porque enquanto for possível medir estar-se-á aquém. A verdade do ser humano extrapola mesmo a necessidade e ou o desejo e a possibilidade de medir, está além e aquém dos lugares comuns criados pelo mito do poder. O próprio conceito de verdade é pouco.
Onaldo Alves Pereira

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Depósitos especiais da Presença


Os seres, em alguns estágios da vida, transformam-se em eficaz depósito da Presença Divina, enquanto graça e energia vivificadora à disposição do mundo.
Como flores, frutos, sementes, filhotes, apaixonados, no cio, grávidas, idosos, fragilizados e moribundos. Aproximar-se dos seres nesses momentos especiais, em agrado e serviço, abençoa a quem o faz e aos seus.
Talvez não haja no mundo meio mais gracioso de Deus vir sorridente ao nosso encontro, do que através desses veículos privilegiados!
Onaldo Alves Pereira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cuidar do mundo


Queremos zelar pela integridade de todos os seres e coisas como zelamos pela nossa felicidade.
Quem cuida bem de um móvel reforça a beleza do mundo e o faz espaço mais amigo da felicidade. Limpar um curso d’água é limpar o rosto de Deus, para ver o Seu sorriso!
Tirar a poeira de um quadro é soprar da alma humana o que lhe empana o brilho.
Consertar uma calçada é abrir o caminho da vida.
Plantar flores planta bem-estar no meio, alimenta as abelhas e delicia a mente humana.
Panelas bonitas enriquecem o sabor dos alimentos e vitamina as boas qualidades.
E assim, nessa atitude, vai sendo bem cuidado o mundo!
Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Você não é bolo de caixinha

Superabundam as receitas do bem viver. Como lidar com os filhos e filhas na infância e na adolescência. Como namorar, casar e separar. Como envelhecer e, até morrer.
Quase todas as receitas são prolixas nas recomendações e dogmas. Sobram os: faz isso, não faz aquilo.
Sujeitar-se a um desses métodos significa, muitas vezes, sobrecarregar-se ainda mais de expectativas, deveres e etc.
Fiz tudo certo e não obtive o resultado!
Não consegui obedecer as regras e deu no que deu!
O problema deve ser comigo.
Ele/a não tem mesmo jeito.
Até o mundo espiritual está no mercado com essas receitas: novenas, correntes, votos, etc.
Nunca o problema do não funcionamento da receita está nela, mas no pobre coitado que falhou em algum ponto.
Livros de auto-ajuda vendem uma felicidade e prosperidade sob medida. Seguidos os conselhos, você será e fará feliz!
Bobagem tudo isso!
Alguns conselhos até que podem ajudar, mas qualquer receita infalível só piora tudo. Você não é bolo de caixinha e olha que até esses, não obstante seguirem-se ao pé da letra as instruções, podem desandar.
Simplificar e naturalizar as expectativas, trazer para o chão os conceitos de felicidade e de bem-estar, contextualizar o dia-a-dia nos seus limites, sem anular os sonhos e nem deixar-se dopar por eles, isso sim, ajuda.
Mais feliz é quem melhor convive até com a própria infelicidade e é capaz de surpreender-se, grato, com as novidades que sinalizam novas possibilidades.
Onaldo Alves Pereira

Apreciamos


Os palhaços, os clowns, os arlequins, as colombinas, os momos, as marionetes e os bonecos de vara e de cordões.
Que o jocoso provoque o riso e traga à baila o lado engraçado de todas as situações. Que se permita rir do sério, fazendo dele um equilibrador capaz de curar a mente das fobias e dúvidas que lhe assustam.
Apreciamos desfazer as caretas com gargalhadas, inventar piadas sobre tudo e abrir picadeiros em todos os cantos, dos templos às cozinhas.
Que, contudo, não se discrimine o fraco, as diferenças ou as sensibilidades e nem se faça anedotas que depreciem pessoas por sua cor, sexo, raça, nacionalidade ou religião.
Apreciamos a comédia como mensageira de uma mente progressista, leve e pacificadora.
O sorriso, o riso, a gargalhada e o soltar do espírito.
A beleza do Sorriso de Deus em nós organizando para melhor o mundo.
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Como se fosse o primeiro amor


Viva cada dia como se fosse o seu último. Essa máxima, tão do gosto de quem pretende chamar para uma maior dedicação e qualidade no agir diário, usa como elemento valorizador a escatologia. A morte vira estímulo e, o fim das coisas o seu qualificador.
Essa é uma mentalidade que desvaloriza a vida. Ao colocar a morte como o filtro final a vida ganha o caráter de qualquer coisa, fica desimportante a não ser sob a foice da “madame”.
Talvez fosse preciso aprender que cada dia é um valor em si, que não carece pressão escatológica alguma para ser o melhor.
Além disso, se algum estímulo é necessário, que tal apelar às primeiras coisas. Viva hoje como se fosse o primeiro dia de sua vida, o seu primeiro amor, a sua primeira viagem etc!
Onaldo Alves Pereira

A favor


Acostumamos-nos a crer que engajamento é estar contra algo, envolvido com algum problema. Isso também, mas não só. Mais importante é estar apaixonado por algo agradável, belo e sadio. Essa militância no bem é mais eficaz na transformação da sociedade do que qualquer outra.
Não podemos passar a nossa existência na zona do contra. Alvo dos que são contra ou contra o que esta aí. Nesse estado está a infelicidade mais brutal, todas as raízes da amargura nele encontram terreno fértil e profundo.
Romper com isso e ser a favor, crescer a favor e buscar o que nos é favorável é saudável exercício de felicidade.
Isso pode significar ter que deixar de lado as estruturas de pensamento e de poder exclusivas e fechadas, desistir de convencê-las e sair do rumo de seus ataques.
Criar um espaço novo é caminho!
Onaldo Alves Pereira

Só reconheço a autoridade do amor. Toda outra tentativa de poder é usurpação!

A favor


Acostumamos-nos a crer que engajamento é estar contra algo, envolvido com algum problema. Isso também, mas não só. Mais importante é estar apaixonado por algo agradável, belo e sadio. Essa militância no bem é mais eficaz na transformação da sociedade do que qualquer outra.
Não podemos passar a nossa existência na zona do contra. Alvo dos que são contra ou contra o que esta aí. Nesse estado está a infelicidade mais brutal, todas as raízes da amargura nele encontram terreno fértil e profundo.
Romper com isso e ser a favor, crescer a favor e buscar o que nos é favorável é saudável exercício de felicidade.
Isso pode significar ter que deixar de lado as estruturas de pensamento e de poder exclusivas e fechadas, desistir de convencê-las e sair do rumo de seus ataques.
Criar um espaço novo é caminho!
Onaldo Alves Pereira

Só reconheço a autoridade do amor. Toda outra tentativa de poder é usurpação!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Procura


Procura
as trilhas mais desertas
os pensamentos mais abertos
de todos, o sabor que mais apela
a vista que suaviza as outras
o sorriso que consegue desarmar
mãos que saibam semear
olhos famintos por arte.

Verga, então,
teu lombo ao fardo
os mastros das bandeiras
as cercas das divisas
o orgulho de ser dono
e será vasilha
na fonte da vida
concha que enche
o oceano da vida!
Onaldo Alves Pereira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Anoitecer


O anoitecer faz “humm” de gostoso e derrama seu dourado pelos cantos antes de puxar sobre a terra seu manto escuro. O gorjeio dos pássaros sinaliza a hora do ninho. Os aromas acentuados oferecem-se sobrando.
A estrada fica mais comprida para os pés que voltam pra casa. Os amores acordam dos desvios do dia e sabem amar melhor. Debruçados nas janelas, os bem-quereres esticam os olhos.
Bichanos e cachorros acordam do calor da tarde e brincam, espoletas.
Temperos refogados harmonizam o lar.
O que resta do dia faz beicinho de abuso e esconde a cara no regaço da serra.

Onaldo Alves Pereira

Deus


Monoteísmo
A crença num Deus único, o monoteísmo, é, sobretudo, um instrumento final de poder. Crendo-se num Deus único, decerto que este será o meu, o da minha religião, o da minha pátria. A missão de converter outros ao meu Deus implicará também o reconhecimento da superior revelação que trago, por conseguinte, cultura mais avançada, o que desaguará na raça eleita, escolhida para ser receptáculo dessa revelação. Sendo único não tolerará a diversidade, o argumento contrário e nem a possibilidade de equívoco, esse único Deus, portanto, é a arma de dominação mais forte.

Deus, Deus
Todos os Deuses são Deus. A misericórdia de Deus proíbe que seja doutra forma. Invente hoje um deus e Deus o absorverá em Si, fazendo com que seja Deus!!

Criando Deus
Não há sobra de mim
sou/estou em Deus
e Deus em mim
Deus me criou
e eu o criei
no amor.
O amor pode criar Deus
criando o amor em mim.

Creio
Creio na Comunidade Divina, à qual chamamos Deus/Deusa/Deuses. O Bem na multiplicidade e a multiplicidade no Bem. A Vida criadora de vida e a vida manifesta em todos os espaços.

Rir
Rir de Deus é essencial,
se Deus não pode ser feito piada
não é deus que preste
para ser Deus.

Criar Deus
Vamos criar Deus à imagem e semelhança de nosso melhor amor, de nosso amor sonhado, de um amor que só é amor no encontro de dois seres. Em Deus o encontro é maior, mais se encontram apaixonados para ser o Ser, para fazer a Comunidade Divina. E Deus, criado apaixonado, há de apaixonar-se por nós e, nisso, trazer-nos para a Comunidade Divina.

Onaldo Alves Pereira




Criei tudo isso!

Um clarão. Zumbido de abelhas. Passarinhos em revoada. As folhas dos buritis em aplausos desafinados. Ventania. O ar carregado de energia. Relâmpagos. Ajuntamento de nuvens carrancudas. Uma vozinha miúda pergunta assustada:
- Posso ficar com você?! Sem voz para responder, apenas aceno que sim.
Mãos pequenininhas me agarram o braço e um corpo tremente se achega ao meu.
O mundo desaba em pedaços de luz, de água e muito vento para espalhar tudo. E a vozinha, mais diminuída ainda, me diz entre alegre e assustada:
- Eu criei tudo isso.
Que Deus!

Onaldo Alves Pereira

sábado, 6 de dezembro de 2008


O picolé e a beleza
“- Coitadinho, tão bonito e vendendo picolé!”
Essa observação, tão comum e diversificada, parece sugerir que a beleza confere privilégios especiais. Que o “bonito”, de acordo com os valores estéticos de consumo em nossa sociedade, é merecedor de algo melhor que o comum das pessoas. Por outro lado, o “feio” é capaz de agüentar mais, de sofrer “naturalmente”, como se isso fosse acessório de sua “feiúra”. Essa valoração estética segundo os critérios do mercado é excludente e adoece o corpalma individual e o social, criando desequilíbrios infelizes! Para o nosso bem, precisamos devolver à beleza a sua plasticidade e surpreendente gama de nuances, para além do que ditam o mercado, a religião e a política!
Onaldo Alves Pereira

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Chapéu
O moreno descia a ladeira, chapéu na mão. Ele vinha de légua e meia de chão. Passava o moço por cerrado tanta fruta, alguma flor. Chapéu que não era só isso.
Trazia muricis graúdos, pitangas e cajuzinhos, o chapéu.
Estendia o chapéu, encolhido num arredio ousar, o moreno: “Procê!”
Vindo à sombra de seu corpo suado, temperado pelo seu sorriso, era do campo o sabor desse bem querer: “Procê!”
Chapéu de murici
querendo beijo de pitanga,
puxando sabor de cajuzinho,
esse agrado de bem querer!
A moça percebia e ia ser a fruta do chapéu.
Onaldo Alves Pereira

O dia


Arreliado, o dia
deu de si
menos de mim

Empoucado, eu
tirei doutros
minguando a todos

Arredado de mim
sobrei nada
fiquei sem ser

a flor
a dor
o sorriso
a fome

deles tão forte
o que de mim não senti
vai o dia

Onaldo Alves Pereira

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Caluda!


Caluda! Chegou a última palavra. O que era esperado por todos os séculos e sobre cuja vinda todos os profetas falaram.
Essa proclamação é repetida através dos milênios enquanto várias figuras afirmam: “Sou eu!” E, outros dizem: “É ele!” Sim, estranhamente sempre ele, um homem. As mulheres parecem não “qualificar”para a missão. Ou será que não é porque são mais espertas e não caem nessa?
A mensagem completa, a última revelação, o enviado é sempre o da “minha religião”. Vivo e acenando sorridente para seus adoradores ou morto e com a sua imagem fanaticamente protegida, o “único” parece ser uma obsessão que ainda provoca guerras, guetos e exclusões. Na realidade, esse “único” é um desvio, pois tira a atenção da única, primeira e última mensagem que importa: a compaixão e o amor! E isso nem precisa de religião!
Há de chegar o momento quando serão calados todos os mensageiros e seus discípulos e tomara seja logo.
Será abafada a sua cacofonia com um ato só, um apaixonado beijo na boca! Esse beijo calará os profetas, renderá inútil o messianismo e transformará em piada toda a sua pregação! Nada conseguirá desviar a atenção do beijo.
Beijo à moda e no sabor do agrado de cada um. Beijo inteiro, amor realizado!
Onaldo Alves Pereira

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Nu


Quando o moral fica reduzido à roupa, falido fica o bem da vida. Vestida ou nua, por costume cultural ou desejo, a pessoa vale mais que o que nela salta aos olhos. Belo corpo vestido com arte, bonito corpo desnudo com candura. Lindo erotismo do vestir-se com pudor. Magnífico corpo pelado como a flor, agradável corpo, guardado em discreto resguardo.
Belo é o corpo velho, como o novo, as rugas enfeitam tão bem como a tenra pele e, treinar-se para assim enxergar o corpo é exercício espiritual dos mais elevados!
Deus é de bem com o que idealizou: a bela nudez, como a capacidade de cobrir-se com enfeitado capricho. Com os efeitos do tempo, ou outros fatores, o corpo é sempre mais que o que parece ser. Nu ou vestido do mais fino tecido ou, em trapos coberto, é mais o corpo.
No aroma da malva fresca!
Onaldo Alves Pereira

A voz mais mansa


Atenta sempre para a voz mais mansa, propondo a ação mais calma, desanimando das estripulias e, poderá seguir o bom caminho da paz. Essa voz vem de dentro, da presença sagrada que mora em cada criatura. Ouvi-la é uma arte, requer ouvidos afinados e pacientes. Crescer na capacidade de não gritar, nem consigo mesmo, aquieta a alma. O silêncio organiza para melhor a voz e, a brandura da simplicidade a torna boa. Assim é favorecida a Vida!
Onaldo Alves Pereira

Quão gracioso o caminho que se desdobra em mil para não deixar ninguém de fora!

O mundo está organizado de forma hierárquica?


O ser humano tende a hierarquizar as coisas de acordo com o grau de conhecimento que tem delas. O que conhece ou julga conhecer bem e, conseqüentemente, domina melhor, coloca no topo da hierarquia. O primeiro lá é o Deus feito à imagem e semelhança do macho guerreiro, voraz, iracundo e tresloucado, porém todo poderoso. Esse Deus é bem conhecido do ser humano porque construído caprichosamente para ser o seu mais eficaz instrumento de dominação. No limite de seu tamanho brande Deus. Em nome de Deus! Feito à imagem e semelhança desse Deus o ser humano é “o tal”.
Em nome dessa entidade grosseira foi escrita uma historia de horrores. Sangue é o elemento mais abundante nessa história, a começar pelos sacrifícios de animais, de outros humanos e prosseguindo pelas guerras santas até que o próprio Deus tem que derramar o próprio!
O segundo na hierarquia é o “homem”. Aliás, espertamente, ele se coloca em segundo para jogar sobre um suposto primeiro a culpa e o poder final, isentando-se a si mesmo da responsabilidade.
Depois vem a mulher, a prole, os empregados, os diferentes, os fracos, o outro e os “reinos inferiores”. Quanto mais distante dos fins imediatos do homem e quanto menos entendido mais “inferior”.
Num certo momento começa todo um jogo de palavras, conceitos e idéias, com o objetivo de colocar cada coisa em seu lugar. Ser vivo, matéria morta, vida no planeta terra, ausência de vida fora dele. Inteligência e raciocínio versus instinto... tudo para emparedar de fora o que ignora, para obter licença para explorar e destruir.
Diferente vira inevitavelmente sinônimo de inferior, isso até no âmbito cultural. As culturas primitivas, os selvagens etc.
Essa visão tensa tem colocado o ser humano numa situação absolutamente impossível. Ele tem que dominar, que ser a coroa da criação e isso, produz a maior angústia da alma humana e, desencadeia os piores conflitos sociais e ambientais.
O outro, o diferente é apenas isso: outro e diferente. O nosso conhecimento do outro tem o nosso tamanho, segue os caminhos de quem somos e é fruto de nossa estrutura. O conhecimento nunca poderá ser absoluto porque nem a nós mesmos conhecemos bem.
Falta-nos a combinação da visão de dentro com a visão de fora. Não conhecemos o projeto original. Não sabemos nem o mecanismo que cria a química de nosso cérebro. O conhecimento humano é essencialmente uma técnica de sobrevivência. Poderia ser também a técnica do prazer, mas a maioria não quis ainda chegar lá.
A preguiça intelectual e a arrogância, numa mistura demoníaca levam o ser humano a julgar inferior àquilo que não consegue destrinchar. Essa obra de inferiorizarão atinge o próprio ser humano. O medo da morte e a falta de compreensão do que realmente seja levou ao desprezo do corpo: “miserável homem sou, quem me livrará do corpo dessa morte?!” Lamentou Paulo, o apóstolo. Se o corpo é inferior daí, o que lhe dá origem, o sexo, é o pecado maior, o fruto proibido. Sendo matéria desprezível o corpo pode ser dominado. A pobreza é bonita porque diminui, principalmente, o regalo do corpo.
Espertamente, uma minoria transforma isso numa política de poder. O clero e os ricos explicam o porquê das coisas serem como são e, por deterem o suposto conhecimento delas, podem mandar e, sobretudo, ter o que os outros não têm.
Sempre em nome de Deus. O começo e o fim das coisas ditas na Palavra de Deus. Do Deus que precisa de um outro, contrário, para administrar a confusão do que não consegue explicar. A pior criação humana, esse Deus, nega o Deus que, houvesse uma hierarquia, estaria na base, para carregar e não deixar perder nenhum de seus seres.
Esse mito não é inevitável. Podemos, e só podemos, viver sem ele. Senão fonte de todos os desencantos humanos, esse mito é, pelo menos, a mãe dos piores. O ser humano é melhor do que isso, e o mundo não merece esse flagelo.
Livre para apenas ser e gozar, o ser humano, dentro do conjunto onde se encaixa perfeitamente sem ter que se medir com ninguém, estar acima ou abaixo, dono ou possuído, somente parte, maior, portanto, do que crê ser ao querer sair do meio, porque, de fato é o todo, seria muito mais feliz até em sua infelicidade!
Dizer não a essa hierarquia é essencial!
Onaldo Alves Pereira